Retiradas

Aires Antunes Diniz

Há poucos dias fomos surpreendidos com o anúncio de um referendo na Grécia. Foi quase em simultâneo com a mudança das chefias militares deste país. Surpreendeu o directório da Europa do Euro e os gregos e aconteceu na sequência de uma luta persistente e tenaz do povo grego contra uma austeridade sem sentido, já que só os empobrece.

É a Grécia o figurino antecipado do que nos pode acontecer e marca agora o destino de muitos políticos europeus. É o caso de Berlusconi, personagem burlesca da ópera política italiana. Parecido com ele, tivemos nós o Sócrates português que se retirou para Paris. Diz-se também que Sá de Miranda, “natural de Coimbra, viveu na corte de D. Manuel e retirou-se para o silêncio, solidão e tranquilidade duma quinta do Minho, onde morreu.” E desde a década de 50, partem os portugueses para a Europa que encheram de gente trabalhadora e esforçada, bem depois de terem feito o Brasil e antes de saírem de África.

Estamos assim todos habituados a retirar de Portugal quando a Pátria se torna madrasta e, até, a nascer bem longe da Pátria Amada. Acontece sempre que a governação é incapaz de dar a cada português um destino digno. A novidade é agora um secretário de estado da juventude ter afirmado: “Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras” (ver aqui). Em simultâneo, o ministro da educação, para “combater o deficit” encetou um ataque à Escola Pública, procurando desempregar os professores necessários para reduzir os gastos. Como resultado, uns professores reformam-se e outros vão ficar desempregados a curto prazo, saindo da zona de estabilidade profissional – o tal conforto. Poucos sobrarão para dar aulas do ler, escrever e contar. De facto, sem Educação Visual e Tecnológica e Tecnologias da Informação e da Comunicação e muitas mais matérias, pouco resta para preparar os jovens para a competição global para onde Mestre os quer mandar. Ficam assim sem solidez os seus argumentos, evidenciando que este governo qualquer dia nos vai propor um referendo e a seguir pedir uma moção de confiança para se retirar em paz.

Está assim este nosso mundo cheio de ruídos e de incapacidades governativas e nem há já quintas onde possamos morrer em solidão e tranquilidade. Na verdade a inquietação perante o futuro faz a todos pensar em partir. Dizem-me até que alguns professores se reformaram para logo emigrarem. Na verdade, os cortes salariais presentes e futuros fazem-nos pensar duas vezes.

Contudo, todos temos demasiadas e intransferíveis responsabilidades para deixarmos a Pátria neste desatino. E também os Mestres são só maus alunos de uma Europa à deriva. Vemos e não bateremos em retirada.

1 – Rodrigo Fernandes Torrinha – Antologia Portuguesa, Livraria Simões Lopes, Porto, 1938.

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