Polio

Salvador Massano Cardoso

As doenças são, frequentemente, fontes de dramas coletivos e pessoais, mas algumas já não têm justificação para tal, deveriam estar controladas ou mesmo erradicadas. E não estão porquê? Por culpa dos homens que se entretêm com outras coisas, balançando-se entre o lucro e a luxúria, fazendo às vezes belas incursões no desconhecido, provando que são capazes do mais belo e puro em contraste com o quotidiano do burlesco e a afronta aos seus semelhantes.

Em pequeno vivi, ou melhor, senti que muitos pais andavam preocupados por causa da poliomielite que grassava, matava e, num número significativo dos casos, invalidava, transformando belas e ágeis crianças em seres meio paralíticos. Mas já havia vacinas e as campanhas começavam a dar resultados. Um dia mandaram-me à vacina, e fui, desta vez sem receio da maldita “caneta contra a varíola” que provocava lesões na pele nada agradáveis. Sentir a pele a rasgar-se e a fazer sangue seguidos de dias de infeção e de dores não era pêra doce. Fazer a vacina contra a polio era divertido, apenas umas gotas avermelhadas que nos enfiavam na boca acompanhadas de um torrão de açúcar. Adorava os torrões e não me importava de ser vacinado vezes sem conta. Que maravilha, vacinas açucaradas! Só mais tarde é que compreendi o alcance da vacinação e, neste caso concreto, da vacina contra a poliomielite. Ver crianças e adolescentes com armações de ferro nas pernas e terem de as arrastar como se fossem grilhões de prisioneiros era horrível somada à impossibilidade de correr e de brincar.

Um dia, na sequência de um curso de pós graduação, deparo-me, casualmente, estar no preciso local onde Salk criou a primeira vacina contra a polio. Não me tinha apercebido. Confesso que fiquei um pouco emocionado por motivos óbvios, sobretudo pela simplicidade com que o acontecimento estava memorizado. Nesse dia tirei parte da tarde para refletir sobre tão grande descoberta. Soube-me bem.

Na primeira metade do século XX esta doença provocou enormes estragos, sobretudo em crianças, quase sempre nos povos que tinham entrado em franco desenvolvimento, fazendo com que as crianças deixassem de ter, nos primeiros anos de vida, contactos íntimos com a natureza, evitando aquilo a que se pode chamar vacinação natural. Quando entravam em contacto com os vírus da polio, não tinham qualquer imunidade e a infeção tornava-se maligna, por vezes mortal. As epidemias eram uma constante com todas as atribulações de responsabilização a denotar medo, ignorância e preconceitos.

Abro o livro de Philip Roth, Nemésis, e verifico que a narrativa se processa dentro e em redor da poliomielite no final da segunda grande guerra. Não foi há muito tempo, as testemunhas dos eventos paralisantes de então andam por aí, são fáceis de testemunhar. Li-o de fio a pavio. As personagens são do outro lado do oceano, mas bem podiam ser do lado de cá. As preocupações e as dúvidas do senhor Cantor deverão ser as mesmas de qualquer um de nós, protagonista ou não da doença.

Dez anos depois desta narrativa, a notável descoberta de Salk, e em seguida a de Sabin, transformaram o mundo, protegendo e defendendo sobretudo as crianças, impedindo-as de serem sacrificadas por um vírus em nome de algo que muitos de nós não entende.

A partir de então perspectivou-se a sua erradicação à escala planetária à semelhança da varíola, a primeira a ser eliminada da planeta Terra. Infelizmente não se conseguiu, apesar da elevada eficácia da vacina e da própria disseminação do vírus modificado na natureza. Motivos de natureza política e religiosa impediram que as crianças de certos países africanos deixassem de ser vacinadas. O islamismo tem destas coisas, vacinas vindas do ocidente são para desconfiar, o diabo para eles deve viver nesta parte do mundo e pode entrar no corpo através de pequenas gotas avermelhadas. Os factos apontam para situações alarmantes em África, o que é lamentável, para não dizer obsceno.

Leio que um caso poliomielite ocorreu em Angola atingindo um bebé de quatorze meses. Foi decretado o estado de emergência sanitária. Outros casos têm vindo a ocorrer noutros países da África Central nos últimos anos. Julgavam que estava erradicada. Imagino o que poderá acontecer a esta criança se as coisas não correrem bem, provavelmente não irá brincar nem jogar como qualquer outra. Ninguém se vai importar com este caso ou outros semelhantes, mas Salk, Sabin e todos os que com ele lutaram e pugnaram na luta contra esta doença não deverão perdoar aos que mandam neste mundo, eles que nos deram uma das mais belas e preciosas jóias, testemunho do afeto e respeito pela vida dos humanos.

 

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