O regresso de Dog Mendonça

DR

João Miguel Lameiras

http://porumpunhadodeimagens.blogspot.com/

Lançado com estrondoso sucesso durante o Festival da Amadora, o 2º volume das aventuras de Dog Mendonça, prepara-se para conhecer o mesmo sucesso nas livrarias de todo o país. Orgulhoso representante de uma espécie rara na BD portuguesa, a dos heróis, o carismático detective/lobisomem criado por Filipe Melo, tem desta vez como missão evitar o fim do mundo, num percurso que o leva (e aos seus companheiros habituais) num percurso de Lisboa a Fátima, onde tem que enfrentar o anti-Cristo, com a ajuda de uma Bíblia infantil e de um demónio de 10 mil anos, que finalmente mostra a sua verdadeira face.

Se a escala é muita mais épica do que no livro anterior, com pragas bíblicas, um monstro de sete cabeças na Rotunda do Marquês de Pombal, zombies e os quatro cavaleiros do apocalipse, a deixarem Portugal (ainda mais) de pantanas, o humor mantém-se em alta, ao serviço de uma história divertidíssima e que se lê de um fôlego. Se na primeira aventura, o destaque maior entre os secundários, ia para a gárgula (cujo verdadeiro nome é finalmente revelado) desta vez é Pazuzul a roubar o protagonismo, mesmo que ainda fique muito por contar sobre este demónio que se esconde no corpo de uma menina. Numa série que joga abertamente com o conhecimento do leitor da cultura pop, desta vez as referências ao cinema já não são tão dominantes, abrindo também espaço a homenagens ao mangá (o anti-Cristo e a sequência final em Fátima evocam o “Akira” de Katshuiro Otomo) e a piscadelas de olho a outros trabalhos de Filipe Melo, de I’ll See You in My Dreams” a “Um Mundo Catita”.

Em termos gráficos, são evidentes os progressos, tanto no traço de Juan Cavia, como nas cores de Santiago Villa, que assinam algumas páginas verdadeiramente espectacularese, a que a impressão do livro nem sempre faz justiça, com algumas páginas demasiado escuras e até, aparentemente desfocadas, o que é uma pena num trabalho com uma qualidade de produção altíssima.

Desde o Jim Del Mónaco de Louro e Simões, nos anos 80, que a BD portuguesa se tem caracterizado por ser uma BD de autor, o que tem dado origem a alguns trabalhos de grande qualidade, mas de impacto comercial bastante limitado. Por isso, são trabalhos como a muito bem conseguida homenagem de Filipe Melo e “sus muchachos” (os argentinos Juan Cavia e Santiago Villa) à BD e ao cinema de terror, que poderão trazer levar o grande público a (re)descobrir a BD nacional. E este sucesso comercial evidente (o primeiro volume já esgotou 3 edições) não parece que vá ficar limitado a Portugal. Além de uma série de 4 histórias inéditas, feitas para a revista americana “Dark Horse Presents”, onde o trabalho de Filipe Melo e Juan Cavia surge ao lado de autores como Mike Mignola, Richard Corben, Neal Adams, ou Dave Gibbons, a preparar o caminho para a edição dos álbuns nos EUA, a Devir já adquiriu os direitos do 1º álbum para o mercado brasileiro.

Este sucesso comercial só é possível porque as pessoas sabem que a série existe, o que nem sempre acontece com muitas outras BDs de igual, ou até superior qualidade, mas que passam despercebidas nas livrarias. E isso deve-se a uma bem orquestrada campanha de divulgação, que engloba uma tournée pelo pais, que passa pela Livraria Dr Kartoon, no dia 9 de Novembro pelas 18h30m, mupis, um novo site e um trailler da BD em que Nicolau Breyner dá a voz a Dog Mendonça, tudo isto suportado pelo próprio Filipe Melo que, como a editora não tinha orçamento para este tipo de divulgação, em vez de se lamentar, decidiu ele próprio deitar mãos à obra, com o mesmo dinamismo e simpatia com que conseguiu convencer George Romero a assinar o prefácio do 2º volume.

Pelo entusiasmo contagiante que trouxe a este projecto de Banda Desenhada, para o qual conseguiu arrastar pessoas de diversas áreas e por ter provado que é possível fazer BD comercial de qualidade no nosso país, Filipe Melo foi, muito provavelmente, das melhores coisas que aconteceram à BD portuguesa nos últimos anos!

(“As extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy II: Apocalipse”, de Filipe Melo e Juan Cavia, Tinta da China, 112 pags, 16,90 €)

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