Exercícios de aquecimento para uma crise maior

Gonçalo Capitão

Vejo com apreensão e impotência o castelo de cartas europeu a desabar. Ontem, Portugal, Grécia e Irlanda. Hoje, Itália e Espanha. Amanhã, França?…

Depois, vejo troikas e burocratas impondo o fim daquilo que sempre nos distinguiu: o modelo social europeu e a cultura humanista.

De facto, o que, durante muitíssimos anos, nos distingui dos EUA e do restante mundo ocidentalizado (porque com resto nem há comparação possível) foi o primado da pessoa humana enquanto eixo em torno do qual se montou um Estado regulador que visava garantir-lhe a dignidade tida por mínima e regular os mecanismos do mercado, de modo a que sua marcha desenfreada não objectivasse o que deveria permanecer subjectivo (ou seja; que se não convertessem sujeitos em números, como, infelizmente, acontece em muitas eleições partidárias portuguesas).

Todavia, o que vemos hoje é a eficácia em lugar da realização pessoal, o lucro ou o ganho de projecto em vez do enriquecimento interior dos seres e do prestígio das instituições, e a obediência acrítica em substituição da força criadora não domesticada.

E no meio desta nova escravatura surgem novos actores sem rosto e um outro demiurgo: o mercado e as suas lógicas. A prova dos poderes dessa divindade que deve aceitar-se dogmaticamente estão ínsitas não apenas nos ataques às economia de nações velhas de quase mil anos ou mais até, mas também nas escolhas que gente sem rosto fez para os governos da Grécia e de Itália. Ninguém questionará a seriedade de Papademos e de Monti. Contudo, não falamos de políticos no sentido clássico do termo (inventores), mas sim de peritos de finanças (mecânicos, portanto) que farão as delícias dos investidores e que alegrarão os que pretendem converter os partidos em sociedades anónimas e em cadeias de produção, como se os indivíduos pudessem ser automatizados e as ideias fossem passíveis de serem enlatadas…

Mas por que diabo ganham estas forças tanto terreno? – perguntamos nós…

A resposta reside, a meu ver, numa classe política ocidental muito fraca e desprovida de horizontes e de coragem para saltos em direcção ao desconhecido. Sarkozy nem com Bruni dá um De Gaulle e Merkel teria que renascer várias vezes para deixar a marca de Adenauer.

A consequência prática disto é que discutimos expulsões do Euro e várias velocidades para a União, em lugar de termos ideais políticos para a Europa e de reinventarmos formas de singrar sem pôr em causa o “mais” social que sempre nos singularizou.

No fundo, queremos tornar-nos em Estados Unidos da Europa sem possuirmos sequer a tradição ou os quadros mentais do liberalismo anglo-saxónico. Tem tudo para dar asneira…

Por Portugal, tirando os nomes consagrados e que vamos sindicando nos noticiários, reina a miséria de ideias políticas, a crueldade partidária e o bailado de interesses de toda a sorte. Cultura do mérito?! Só da boca para fora e com muita subserviência.

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