China faz parte do problema e não da solução

Júlio Marques Mota

A acreditar nos subentendidos dos grandes jornais nacionais e estrangeiros, o suposto acordo a que agora se chegou para salvar a Europa terá sido um acordo para, por um lado salvar os banqueiros, recapitalizando-os, a estes bancos que não deixaram até hoje de serem uns mãos largas nos bónus e nas altas remunerações, e para, por outro lado, amarrar os Estados membros a uma lógica de austeridade com a regra de ouro na Constituição a ser imposta.

Com tudo isto, os Estados membros desta triste Europa como prisioneiros da austeridade imposta, como prisioneiros dos mercados financeiros, obrigados ainda serão a terem que recorrer a potencias estrangeiras que à Europa são democraticamente estranhas.

Mude-se a Constituição de cada país e determine-se isso mesmo nas costas dos respectivos povos, garanta-se mais austeridade, continua-se com as políticas que nos levaram a crise, continua-se a aumentar a precariedade e a exclusão social, continua-se a não ser capaz de dar resposta aos terríveis problemas de desemprego, continua-se com as privatizações, continua-se a não tocar nos mercados financeiros, nos seus produtos, nos seus mecanismos, porque estes são eficientes, continua-se a recapitalizar os bancos e passa-se a recorrer aos apoios externos para aliviar a pressão sobre a dívida soberana dos países da zona euro. Foi isto ou pouco mais do que isto, esta tão importante cimeira.

Recorra-se aos apoios externos. Numa linguagem soft, por estas palavras entendem-se os países emergentes, os BRICs, mas objectivamente o que está subjacente a esta sigla será nem mais nem menos a China e em segundo lugar a Rússia, isto é, países que à Democracia dizem muito pouco e são estes países que se quer que venham salvar a Democracia que os banqueiros, grandes protegidos dos políticos que tudo orquestraram, continuam de forma sistémica a querer afundar. Até a cinzenta Maria João Rodrigues que nunca a ouviram falar quanto às medidas que se têm estado a tomar, que nunca a ouviram contestar a arquitectura da União Europeia que esta situação consente, vem agora dizer que se trata de um continente a ficar nas mãos da China que, pasme-se, o que quer é sobretudo o reconhecimento do estatuto de economia de mercado o que a União não lhe tem reconhecido, sequer. E até aqui a União Europeia tem tido razão, mas será que a necessidade de se submeterem à ditadura dos mercados financeiros que directamente nada tem a ver com esta pretensão chinesa, fará com que à China seja agora dada razão? A ilustrar a posição que a Europa tem assumido quanto a esta matéria, reproduzo aqui uma pequena história contada por Quatrepoint como sendo verdadeira: “Christian Estrosi, então ministro da Indústria, em visita à China, queixou-se junto do seu homólogo de que a contrafacção não deixava de aumentar. O seu hospedeiro reconhece que as sanções não foram talvez suficientes e diz: “nós executámos na semana passada vinte e uma pessoas acusadas de contrafacção. Nós podemos, se o desejam, dobrar este número no próximo mês. E se o quiserem, poderemos mesmo inscrevê-lo no comunicado conjunto”. E assim o tema saiu da agenda das discussões” .

Os Deuses de todas as nossas culturas devem estar loucos, parece-me, quando se coloca a hipótese de se ter que recorrer à China como fazendo parte da resposta interna da Europa à crise e aos mercados financeiros quando a China faz parte do problema e não da solução, porque é profundamente co-responsável pelos desequilíbrios internacionais existentes nas trocas comerciais e na irreversibilidade de muitos desempregos criados. Têm mesmo que estar doidos os Deuses para além de desde há muito tempo andarem profundamente distraídos.

Nesta Europa já de costas para a Democracia, e se dúvidas temos, digam-me quais foram as medidas concretas até agora executadas ou a executar pelo governo português que tenham sido anunciadas em campanha eleitoral pelo actual Primeiro-Ministro, propostas sujeitas a voto popular portanto, para que na verdade se possa dizer que estamos em Democracia. Nesta Europa dos políticos falsários, a cada Estado ou a cada espaço económico deve também corresponder a sua nova moeda, a sua moeda também ela falsa, e então, aqui vos proponho como primeiro exemplar, uma nova nota, neste caso uma nota de 5 euros, com a qual poderão ir jantar nos vossos almoços virtuais. E saudações argonautas, se é que o termo existe, mas se não existe também não tem problema, porque a nota também não existe.

 

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