Cartas ao Poder e aos Poderosos

Norberto Canha

Na última vintena da vida – eu considero que o calendário da vida comporta cinco períodos de vinte anos (vintenas). A primeira vintena é o período de formação, nela interfere os familiares, os amigos, os vizinhos, a sociedade e o Estado. Nesta vintena ao terminar com o serviço militar obrigatório, que até devia ser extensivo a todas as mulheres, perdeu-se a oportunidade de disciplinar – e aprender a respeitar regras – a mocidade. Donde, a anarquia cada vez mais gravosa e uma mocidade descontente e sem horizontes.

Na segunda vintena – dos 20 aos 40 anos – é o período de enraizamento; tem-se uma profissão, constitui-se uma família, procura-se um lugar para nos enraizarmos para poder dar à família o conforto que tivemos … de algum que tenhamos conseguido.

Na terceira vintena – dos 40 aos 60 anos – é o período de formação, só forçado é que se muda de lugar; conhecemos os lugares, as pessoas, temos emprego e profissão.

A quarta vintena – deverá ser o período de diversão e reflexão. Devia-se estar a caminhar para a reforma e só deveríamos fazer o que nos agrada, nem que fosse trabalhar, e, reflectir sobre as coisas, as consequências e as soluções. Isto levar-nos-ia a pensar que a reforma deverá ser estabelecida entre um máximo e um mínimo; quem quisesse maior reforma que investisse no erguer de empresas, como as de produção de energia, que não poderiam ser estranguladas pela ambição desmedida dos governantes e governados. São jóias que se compram e que ao comprador sempre nos pertencem ou pertencerão.

A quinta vintena – dos 80 aos 100 anos – é o período da meditação, acção, e resignação. Somos livres e independentes, só temos que prestar contas ao criador, é o momento de pôr em acção, o fruto da reflexão e meditação.

Na última vintena da vida, interrogo-me – eu que tive a vida plenamente ocupada – se não terei a obrigação de me pronunciar sobre, por exemplo, a diminuição das autarquias e freguesias? Creio que tenho!

Mas para isso, proponho para algumas interrogações, dar as respostas com fundamentação.

Haverá autarquias a mais? Não! O que há é funcionários a mais, cerca de cinco vezes mais do que no tempo em que me iniciei como autarca.

Se as autarquias reduzirem as suas despesas em pessoal, dá para economizar mais do que com a extinção se pretende poupar. E, assim, elas estão ao lado do consumidor que é o cidadão que vive naquele território.

E há freguesias a mais? Há, para a densidade populacional que grande parte das freguesias rurais hoje têm.

Mas será que o “troiquismo” (Troika) apresentou alguma sugestão para a solução da crise? Creio que não! Comportaram-se apenas como bons contabilistas! O que era preciso é que a troika e os governos soubessem quais os caminhos a traçar, rumo ao futuro, para sair da crise e não cair em futuras crises.

Será que o Povo se apercebe de que os sacrifícios exigidos a todos nós – e não há direitas, nem esquerdas – se não nos unirmos, pouparmos para produzir cada vez mais, nos afundamos no atoleiro em que caímos?

Vamos pensar, para responder.

Só há duas formas de energia indispensáveis para pôr em funcionamento a máquina do presente e do futuro – a energia electromagnética (E.E.N.) e a energia alimentar (E.A.), estas entre si intermutáveis. É isto que falta é isto que temos que produzir para sermos um país com futuro e de futuro!…

Mas estas energias E.E.M. e E.A. onde se produzem?

No campo, nas freguesias, no mundo rural.

Nas cidades nada se produz, só se consome. Nada se produz que não possa ser produzido no mundo rural. Isto é indício que temos que voltar, esgotadas que foram as potencialidades de emprego das cidades, ao meio rural. O meio rural é uma fonte inesgotável de arranjar trabalho e de bem-estar; em contacto com a natureza e a não poluição das cidades. A juventude tem que se capacitar que se até há bem pouco tempo um curso superior era quase a garantia certa de emprego, neste momento um curso superior, um mestrado e um doutoramento não são garantia de nada. Deve ser tomada como uma valorização acrescida para criar o próprio emprego, e no caso de não arranjar trabalho no escalão para que está habilitado, iniciar-se nos mais baixos escalões, que o seu mérito apoiado na preparação e qualidade de trabalho produzido serão as únicas armas para a ascensão e progressão profissional.

Há trabalho para todos, assim eles queiram trabalhar!

É este o nosso futuro, o futuro que nos aguarda, o futuro de todos e de cada um de nós!

One Comment

  1. Álvaro Cardoso says:

    Concordo em absoluto com as afirmações contidas no texto subscrito pelo Sr. Prof. Norberto Canha. A sua larga experiência da vida dá.lhe toda a autoridade para se pronunciar da forma que o fez. Conhece bem o mundo rural e as suas potencialidades. Foi a vida que tive desde tenra idade que me permite aplaudir a sua visão do momento actual. Talvez uma das poucas oportunidades para conseguirmos ver a luz ao fundo do tunel. Parabéns, Sr. Prof. Canha, pela lucidez que expressa no seu texto e vontade de contribuir para uma vida mais feliz e mais justa para todos.

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