Caro colega, ministro da Educação

Júlio Marques Mota

Quando tive conhecimento da composição do Governo fiquei satisfeito, muito satisfeito mesmo no que se refere à educação, desde o ensino básico ao ensino superior.

É certo que ser o país governado por Sócrates, o liberal puro e duro que numa fachada socialista se escondia e em que muita gente acreditava, ou ser o país governado por Passos Coelho, o liberal puro e duro, que como neoliberal se afirmava politicamente, pouca diferença havia, excepto que enquanto um como neoliberal mentia, o outro, Passos Coelho, como neoliberal se assumia. Havia pois uma vantagem com o actual primeiro-ministro, sabia-se frontalmente o que era e, desta forma, cedo ou tarde as pessoas sentirão a coragem e sobretudo criarão a unidade para vir para a rua e nesta ou sobretudo nas eleições que se lhe seguirem o governo irão fazer cair.

Mas havia uma diferença, entre o governo anterior e o actual, havia o senhor Ministro Nuno Crato a fazer a diferença, tal é o nosso sentimento de urgência em ver o nosso ensino melhorado depois do Tsunami de destruição que Maria de Lurdes Rodrigues e Mariano Gago ao país trouxeram, sentimento de urgência esse que nos fez perder alguma serenidade, alguma falta de discernimento sobre o ensino que pela sua mão aí vem. Daí o entusiasmo sentido pela sua pessoa, entusiasmo profundamente errado como veremos.

É certo que nunca o vi criticar a situação calamitosa em que se encontravam as Universidades, sob a direcção de Mariano Gago e na base de um projecto que a ministra anterior Maria da Graça Carvalho, e também ela professora no Técnico, tinha já anteriormente elaborado, é certo que não o encontrei no ISEG, e lamento profundamente enquanto professor, quando aí proferi uma conferência sobre Bolonha, sobre o estado mais que lamentável em que a política de ensino seguida nos estava a conduzir, ou seja, para uma Universidade de costas voltadas para o saber, de costas voltadas para a verdadeira formação das gerações futuras, a conduzir, em suma, para uma Universidade em ruínas.

Enganei-me redondamente. Com efeito com um governo destes, com uma crise como esta, com um ensino em profunda crise por Sócrates assim deixado, muito dinheiro seria necessário, muito empenho colectivo era suposto dinamizar para uma verdadeira reforma assim alcançar. Mas o governo quer ir mais rápido que a Troika, o apoio social a essa reforma, esse, está a ser destruído, o dinheiro será muito menos ainda do que aquele muito pouco que a Troika nos estaria a deixar e, então, chega a ministro, senhor Ministro, para fazer o quê, afinal? A resposta está já bem à vista de toda a gente, para já chega a ministro para ser, simplesmente, poder.

Também é normal que os filhos do meu país tenham o mesmo sentimento quando aparecem no quadro de honra da sua escola, quando sabem que a sociedade lhes prometeu um pagamento de 500 euros, uma dívida que poderia circular livremente e que algum financeiro ainda poderia titularizar, se dada a ganância com que andam, os deixassem negociar. Mas os filhos do meu pais, enganaram-se duas vezes.

Enganaram-se a primeira fez porque não sabendo nada da crise são também eles que a têm de pagar, mesmo que seja com o frio que pelo corpo se lhes há-de entranhar.

Enganaram-se uma segunda vez mais, porque o governo do seu país mais parece um grupo de gente licenciada e bem formada a captar o rendimento que os trabalhadores andaram a ganhar e tudo isto para uma outra dívida honrar: a que aos interesses financeiros se deve pagar, mesmo que para isso aos nossos jovens tenhamos também que defraudar. As dívidas que a sociedade nos deve, via Governo, essas não são para pagar, não são para honrar, reconhece-se agora. Não sabia.

E ei-lo a defender o que ninguém com dignidade defenderia: o problema dos prémios não era um problema de promessa não cumprida, da dívida não liquidada, não, o problema era apenas um problema de comunicação quanto à informação de que dinheiro nenhum eles teriam. Espantoso, senhor ministro, economista de formação e matemático por graduação, de sólida formação havida e creio que mantida, o tempo com tudo o que de diferente implica afinal para si não existe, pois o prémio ser devido a um comportamento de ontem, com contratos firmados, com uma dívida na verdade garantida é para si equivalente a um contrato futuro com regras ainda por estabelecer, em que tudo se pode mudar, como até o projecto de contrato poder rasgar.

One Comment

  1. Quem fala assim… Bem Haja.

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