Portugal merece

Álvaro dos Santos Amaro

Na passada quarta-feira, 5 de Outubro, presidi em Gouveia a uma bonita sessão comemorativa do centenário da Sociedade Musical Gouveense Pedro Amaral Botto Machado, que constitui um orgulho dos gouveenses e cuja acção vai muito para além das “nossas fronteiras”.

Mas se isso me bastava para aqui realçar o facto, não é demais sublinhar a íntima associação desta banda filarmónica ao ideário republicano.

Diz a história desta colectividade que, aquando da comemoração do 1.º aniversário da Implantação da República, um punhado de filarmónicos da então “Sociedade Euterpe” que, apesar da não anuência do seu maestro, mas com a autorização do “Administrador do Concelho” (na actualidade Presidente da Câmara), arrombou a porta do ensaio e, embebidos pelo espírito republicano, estes músicos vieram com os seus instrumentos para a rua festejar o acontecimento histórico, executando “A Portuguesa”.

Terminadas as voltas à vila, não levaram os instrumentos para o ensaio e pensaram em fundar uma nova Banda de Música.

Atento ao que se passou, o “Grande Republicano”, Pedro Amaral Botto Machado, dirigiu-se aos músicos, felicitando-os pela sua bravura à causa republicana e perguntou-lhes se tinham vontade de continuar com a ideia de formação da nova banda. Admirados e entusiasmados pelo que tinham ouvido, disseram de imediato um “SIM” em uníssono e, a partir daí, o grande benemérito tratou de lhes arranjar sede, fardamento e instrumentos que vieram gravados com o seu nome.

Compreende-se bem que, se outras razões não houvesse, e muitas há, esta seria, só por si, de absoluta relevância para vivermos e falarmos em 5 de Outubro dos ideais da República.

E justamente quando ia a caminho de Gouveia pude ouvir na rádio declarações do Prof. Boaventura de Sousa Santos, o meu grande Mestre de Ciências Sociais na Faculdade de Economia, corriam os anos académicos de 73/74 e 74/75. Aí ensinou-me muito, desde ler Karl Popper, discutir o papel do sindicalismo ou a sociologia das organizações. Ao longo destes anos ouço e leio com respeito e interesse muito da sua notável participação cívica. E nessa manhã do passado 5 de Outubro salientava, então, que os nossos jovens em Portugal têm dado um exemplo importante de compreensão dos ideais republicanos, na medida em que não tinham optado por radicalismos que poderiam gerar revoltas na rua e, enfim, situações que poderiam pôr em causa a estabilidade social (acrescento eu) que tanto importa nesta altura de profunda crise. Mais uma vez não posso estar mais de acordo.

Mas ao ter ouvido estas palavras muito acertadas, repito, ocorreu-me fazer um paralelo com umas declarações ainda recentes do primeiro-ministro sobre os alertas para que o país não deve viver ainda que com todo o respeito democrático pela luta dos direitos sociais. O primeiro-ministro falou, e bem, sobre a responsabilidade que está sobre os ombros de todos nós para vencermos a crise. Era um apelo aos jovens, aos trabalhadores, aos empresários, aos portugueses em geral para a responsabilidade colectiva.

Mas aí “choveram” as críticas. Nada mais injusto.

De resto, no passado 5 de Outubro, o discurso do Presidente da República foi muito claro ao alertar para o facto de esta crise nos trazer os maiores sacrifícios desta geração. E quando já se admite um segundo resgate financeiro a Portugal ou que, segundo uma sondagem, quatro em cada cinco gregos acreditam na falência do país nos próximos meses, pergunto-me se não deveremos fazer todos os apelos à nossa consciência cívica para termos uma atitude de solidariedade para com o país.

Portugal merece.

One Comment

  1. alcaide montemayor says:

    sacrificios para todos sim, só para os mesmos NÃO.

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