O presidente a “vender gato por lebre”

José Junqueiro

Com menos popularidade do que o 1º Ministro, o Presidente da República veio quarta-feira à televisão, sob a forma de entrevista, dizer que existe. Foi prolixo, falou um pouco de tudo e omitiu de tudo um pouco.

Autor da crise política que estalou na Primavera, com o seu discurso de posse, tem agora no poder uma coligação de iniciativa presidencial. E as palavras que se lhe conhecem vão todas, por inteiro, dirigidas à absolvição plena de tudo o que o seu 1ª Ministro assina.

Não se ficando por aqui, dá um salto aos Açores, entusiasmando um PSD regional em véspera de eleições, distende a sua comitiva nuns dias de turismo que lhe pagámos dos nossos impostos e aproveita o contexto para dizer que a situação económica da Madeira não afectará os portugueses do continente.

Regressando à entrevista, relembro o que disse: “2012 vai ser um ano muito difícil. Espero que na segunda metade do ano comecem a aparecer sinais de recuperação da economia e emprego”. A novidade estará certamente em nenhum de nós desconfiar que 2012 vai ser um ano dramático, para além da Troika. Agradeçamos, então, aviso tão oportuno.

Não deixou também de referir, depois do desaire de Pedro Passos Coelho, nessa tarde, na Assembleia da República – onde admitiu ter “falado demais”, há quinze dias – que a ausência de um plano de austeridade para a Madeira não compromete a transparência das eleições. Pois não, mas apenas na sua douta opinião!

O “buraco grego” da Madeira é um desastre. A reposição do equilíbrio orçamental implicará fortíssimas medidas de contenção. Os madeirenses pagarão forte a irresponsabilidade do Governo que escolheram. E é muito claro para o Presidente da República que os eleitores do arquipélago, ao irem votar na mais completa ignorância do que lhes vai acontecer, farão uma escolha esclarecida, responsável e transparente!

Relembremos só o que o Presidente, em 2008, disse na Assembleia Regional da Madeira, diluindo-se em elogios que eram outras tantas recomendações para o Governo de José Sócrates:

1. “que a região é um ‘caso de sucesso económico e social’; 2. que ‘o desenvolvimento aqui registado deve servir de estímulo para Portugal inteiro’; 3. que a Madeira mostra ao País ‘que é possível fazer melhor’; 4. que é ‘legítimo’ que o governo regional exija ‘mais e melhor da parte das autoridades da República’”. Ora toma!

É este o Presidente da República, economista, experiente, isento, que nos aconselha e que na televisão, à noite, voltou a aconselhar e a lembrar os conselhos passados que “alguém não quis tomar em conta”.

É exactamente o mesmo que ao sair de 1º Ministro de Portugal deixou o país com um défice de quase 7%, um desemprego a caminho de meio milhão, milhares de empresas na falência, centenas de milhar de salários em atraso, bandeira negras nas ruas, polícias a bater em polícias e portugueses com fome, enquanto o próprio comia “bolo-rei” e nada podia dizer aos jornalistas, porque é falta de educação comer com a boca cheia!

Lembram-se como tudo começou nessa crise bem portuguesa, sem Grécia e sem desculpas? Foi também numa entrevista na televisão – com o mundo financeiro a ouvir – com o Presidente a anunciar que na Bolsa se estava a “vender gato por lebre”.

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