O meu telefone

Francisco Queirós

Os telefones são hoje muito mais que um meio de comunicação. Na vida moderna, os telefones tornaram-se desgraçadamente imprescindíveis para quase todos. Eles dão um pouco de tudo, desde mensagens a fotografias. Nos telemóveis há jogos e agendas, conversores de moeda, calculadora, gravador, despertador, acesso a redes sociais e muito mais e claro a faculdade de contacto permanente com quem queremos, onde quer que estejamos. Até irrita! Assim, não admira que o telefone traga sentimentos, paixões, sedução, raiva, dores, segredos e desabafos. O telefone do ministro Miguel Macedo escorre sangue. Foi o que o ministro da Administração Interna revelou ao Correio da Manhã. O que será que escorre no telefone dos outros ministros? No telefone do titular da pasta da Educação, no da senhora da Agricultura, no do titular da Saúde ou no telemóvel do primeiro-ministro? Se Macedo tem os ouvidos sujos de sangue, o que enche os ouvidos dos outros governantes? Recados de fora, ordens de serviço da troika. E que mais?

Nós por cá vemos, ouvimos e lemos e, como a poetisa, não podemos ignorar! Pelos telefones dos portugueses também escorrem rios de lamentos. A diferença é que o país ao telefone é para os portugueses o país do seu dia-a-dia, onde escorre de tudo menos marfim, onde há sangue e lágrimas, desespero e desilusão muitas vezes, esperança também vai havendo, disponível em doses cada vez mais reduzidas.

O meu telefone toca e do lado de lá está o país que temos que chega pela voz dos amigos, pela voz dos que procuram a intervenção do autarca e que transmitem reclamações e exigências, pedidos de ajuda, desabafos, indignação e reconhecimento. Quando o telefone toca, traz consigo a vida, as boas e as más notícias. O meu tocou ontem, e quando atendi, o João transmitiu-me a má notícia. A morte do Mário Alberto. Pintor, cenógrafo, figurinista, fundador do Ádoque e da Barraca, Mário Alberto foi o senhor da Revista, o homem do teatro, da televisão e sobretudo o cidadão crítico, exigente, irreverente e solidário. O meu telefone é assim, às vezes, teima em trazer más notícias.

Os telefones não são todos iguais. Há telefones ricos e telefones pobres. Há telefones que choram, que sofrem, que confessam amores, que gritam, que imploram ajuda, que beijam, que acariciam, que confortam e acarinham. São telefones de carne e osso. E há telefones austeros e crus. São os telefones de fraque. Há telefones que mordem. Há até os que jorram relatórios e por onde escorre sangue. Há os que despejam números. Há telefones que debitam encómios e bajulações. Há telefones que só dão ordens. Há telefones cruéis. E até os há que dispensam pessoas e despedem trabalhadores.

Trrim, trrim. “Sim?”. “Pai, ouve…” Vou ouvir. Com licença. Até já.

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