Nudismo e doenças infecciosas

Massano Cardoso

Os seres humanos são muito esquisitos, até se esquecem da sua condição animal. Julgam que estão nesta vida com direitos próprios, fazendo de conta que são deuses, talvez até sejam, mas de terceiríssima ordem. Coitados. “Coitado é corno”! Dizem lá para as minhas bandas; tenho que ter muito cuidado com esta palavra, uma entre poucas que me provoca uma certa inibição. Mas hoje apetece-me dizer: coitados. Lembram-se de coisas que nem passa pela cabeça do diabo, o que não é difícil graças à natureza deste, que, julgo, nunca se preocupou com micróbios ou infeções, que é muito improvável de apanhar no inferno, ambiente inóspito à transmissão de doenças infecciosas. O inferno ainda deve ser pior do que o planeta Marte, esterilizado, pelo que é fácil de concluir que as bactérias e os vírus não vão para o inferno, mas mandam muitos de nós para lá.

A paranoia das doenças infecciosas é recorrente. Lembram-se das ameaças da gripe A, da gripe aviária e da pneumonia atípica? Só para falar das mais recentes. Entre as medidas propaladas até à exaustão destacaram-se o não contacto com as mãos, deixar de andar aos beijinhos, não aproximar muito uns dos outros e a necessidade da desinfeção contínua das mãos, dos objetos, das maçanetas, das mesas, enfim, uma verdadeira loucura, tudo isto devido ao medo de contrair e propagar os vírus. Nalguns países até foram tomadas medidas normativas e legislativas de caráter obrigatório. Agora imaginem uma proposta de lei a obrigar os nudistas de uma cidade, São Francisco, a terem de utilizar uma proteção para cobrir os assentos públicos antes de se sentarem. Quais assentos públicos? Assentos dos transportes, cadeiras de cafés e de restaurantes! As razões assentam na hipótese de a nudez poder aumentar a propagação de doenças infecciosas. É muito difícil compreender como é possível tal coisa, ou seja, alguém lembrar-se de uma iniciativa desta natureza, por várias razões; a pele é uma boa capa protetora e, mesmo naqueles casos de infeções feco-orais, não se visualiza grande hipótese de risco, a não ser que se ande borrado, o que é muito feio para um nudista que se preze, e, mesmo assim, se nos lembrássemos da contaminação com bactérias e vírus, que diariamente andamos a disseminar, então, teríamos de andar de luvas, máscaras e a desinfectar-nos constantemente.

Parece que muitas pessoas consideram estar perante uma boa ideia; estamos a falar dos que se julgam ser superiores, provavelmente “não humanos”, intocáveis, indignos de serem “apalpados” ou vítimas de infeções e que fazem tudo para não se cruzarem com os microorganismos, mas não se importam de mexer naquelas notas verdes, deliciosas, de toque especial e que, por vezes, deverão comportar por centímetro quadrado mais bactérias do que um traseiro mal limpo. Que raio de ideia a de obrigarem os nudistas a usar um protetor, antes de se sentarem, em assentos públicos. Mas será normal andar nu em locais públicos? Sei lá, às tantas até é! Neste caso, para não incomodarem os nudistas – terem de andar com as tais capas protetoras às costas ou debaixo dos sovacos –, o melhor é arranjar uns dispositivos semelhantes aos utilizados para apanhar os resíduos fecais dos caninos, colocando-os à porta dos cafés e restaurantes ou no interior dos transportes públicos. Já agora podiam ser acompanhados de um frasquinho de água-de-colónia, até vinha a propósito…

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