No TAGV “temos de saber fazer o compromisso entre criadores emergentes e consagrados”

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Foto Gonçalo Manuel Martins

Fernando Matos Oliveira, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde é um dos responsáveis pelos Estudos Artísticos, assumiu em julho a direção do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), a celebrar 50 anos. Em entrevista, assume a importância da comunicação com o público e afirma a necessidade de um trabalho em rede dentro e fora da universidade. A programação traz novidades já este outubro.

O TAGV está a assinalar 50 anos. Acaba de assumir a direção da sala neste que é um momento de viragem. É uma grande responsabilidade?

Sim, claro. Até pelo facto de o TAGV ter desempenhado um papel complementar na formação cultural e até cívica de várias gerações, estudantes ou não. A questão que se coloca hoje – mesmo antes de avançar para propostas concretas, naquele que é o estado da cultura contemporânea, no que é hoje o espaço público, o ensino e a cidadania – é se ainda podemos pensar numa posição complementar orgânica em que este espaço, o TAGV, preenche algo, acrescenta algo à vida dos estudantes e de toda a comunidade a que se dirige.

Deve ainda pensar-se essa posição complementar?

As instituições como o TAGV têm de ser capazes de pensar o seu lugar numa sociedade em que, sobretudo os estudantes, os mais jovens de uma forma geral, se dividem entre a internet, todos os jogos eletrónicos e muitos outros apelos, formas de entretenimento, que não são já aquelas que aconteciam nos anos 60/70/80.

Quando espaços como o TAGV não tinham concorrência?

Não havia concorrência. É mesmo disso que se trata. Ou seja, aquele que era um lugar central ocupado por teatros como este, passou a ser disputado por muitas outras solicitações nas sociedades contemporâneas. E este não é um desafio apenas para estes teatros – para todos, não apenas em Coimbra –, mas também para outras instituições, como a escola, o ensino formal, ou até o trabalho e as empresas. A natureza da sociedade alterou-se de tal maneira que as formas de entretenimento, de ensino e de trabalho reconverteram-se, reconfiguraram-se. E, de algum modo, estamos todos à procura de um caminho novo.

É preciso, portanto, reinventar a função de uma sala como esta?

Sem dúvida. E isso passa, desde logo, pelo seguinte: nós não podemos estar à espera da bondade das pessoas. Já não é verdade que as pessoas passam, veem e entram. Até podem olhar, mas já não entram imediatamente. Nós temos de ser capazes de chegar às pessoas, às diversas pessoas, de uma maneira muito direta. Porque as formas de comunicação e de contacto são hoje muito participativas, próximas, com este mundo da net. E muito do nosso público, até à faixa dos 30 anos, já nasceu nesta cultura. Um dos pontos decisivos para nós é sermos capazes de um projeto de comunicação, de divulgação – obviamente, para sustentar um projeto de programação –, que chegue às pessoas.

Que faça essa ponte?

Um dos nossos trabalhos neste momento é, justamente e depois de resolvidas as urgências destas primeiras semanas da reabertura para uma nova temporada, organizar de base um projeto de comunicação, de divulgação, que passa por estabelecer protocolos, parcerias, adequando a cada evento uma comunicação, envolvendo os vários meios, entre os novos e os tradicionais, escritos e não escritos. E isso é decisivo. E também potenciar na nossa vizinhança todas as entidades que podem amplificar a nossa presença, tanto dentro como fora da universidade.

É de um trabalho em rede dentro da instituição “mãe”, a universidade, que fala?

Sim. Isso é muito importante para nós e também é parte da missão assumida quando aceitamos o convite para a direção do TAGV. E posso até dar um exemplo concreto: há dois doutorandos do curso de Estudos Artísticos que pretendemos envolver neste ano (2011/2012) de programação. Portanto, o TAGV pode ser essa extensão de projetos de criação, de investigação, que foi episodicamente no passado, mas que pode agora vir a ser de uma forma muito mais forte. E isso é, também, dar sentido ao conceito de teatro ligado à universidade, agora não apenas no sentido institucional, mas traduzido em ações concretas.

Numa relação que vai para lá da licenciatura em Estudos Artísticos?

Naturalmente. Esta é uma relação que se pretende alargar a outros projetos nos domínio das artes, como o Colégio das Artes, a fazer formação avançada pós-graduada, com várias dezenas de doutorandos com experiências diversas no domínio das artes, algumas com grande experiência e competência e que podem ter aqui um espaço para fazer coisas e desenvolver ideias e projetos.

Isto significa transformar esta sala num espaço de intervenção preferencialmente académica?

Significa abrir a sala a essa possibilidade, quando anteriormente não passava de um espaço de acolhimento de alguns eventos da vida académica, no que diz estritamente respeito à universidade. Mas essa é apenas uma componente do que a universidade faz. Trazer as coisas que dizem respeito aos domínios da criação e da reflexão contemporânea sobre as artes é fazer uma abertura necessária. Mais do que isso, a ideia é aproveitar o que de melhor se fez no TAGV ao longo destes 50 anos, recuperando alguns desses bons momentos.

Recuperar alguns bons momentos em que áreas?

Por exemplo, os bons momentos de programação na área do cinema, os circuitos de itinerância de projetos importantes no teatro, na dança e até na música. Também em algumas componentes contemporâneas que são as do teatro-dança e da dança-performance, por exemplo.

O TAGV quer voltar a ocupar um lugar que já teve numa rede nacional de apresentação da produção artística contemporânea em áreas como o teatro, a dança, a música?

Nós temos de trabalhar com uma grande dose de inteligência e sentido crítico para identificar as nossas capacidades, as nossas possibilidades de programação na paisagem contemporânea. As opções passam por, à nossa escala, fazer um compromisso entre criadores emergentes, nacionais e internacionais – que para nós fazem sentido por se tratar do contexto institucional, universitário, próximo da investigação e da criação em que estamos –, mas também porque, naquilo a que nós chamamos economia das artes, é mais fácil e é até mais pertinente pelo nosso público ter cá um criador emergente, do que apostar apenas em nomes consagrados. Isto não significa que não tenhamos igualmente de trabalhar a grande escala, para que seja possível relacionarmo-nos com um público mais alargado na cidade. Apenas temos de fazer o compromisso entre estas duas opções. E, obviamente, a possibilidade de trabalhar hoje a grande escala tem de ser muito bem pensada, para que as opostas sejam as corretas e tenhamos os suportes financeiros adequados.

Exemplos dessa possibilidade de trabalhar a grande escala?

Por exemplo, a programação em rede que está a ser feita no âmbito do QREN permite, eventualmente, algumas dessas experiências de programação em grande escala ou de nomes mais consagrados. Outros casos, sem essa rede, sem esse suporte, nós temos de ter outras estratégias para fazer coisas com sentido crítico, tentando encontrar pontualmente os apoios necessários.

O TAGV tem hoje um enquadramento diferente, por via da Fundação Cultural da UC. Como é que se resolve a questão central do financiamento?

De facto, a questão do financiamento é hoje muito premente. Embora tenhamos de reconhecer que o TAGV nunca teve, porventura, uma situação confortável ou estável em termos de financiamento. Em geral, o financiamento era alvo de uma negociação permanente entre o TAGV e a reitoria, a universidade. E, obviamente, como qualquer teatro português, o TAGV sempre entendeu que precisava de mais meios para fazer mais coisas. Esse é mais ou menos o estado natural das coisas nas artes. Posto nisto, é claro que a passagem para a fundação apresenta desafios novos, mas também oportunidades. Com a possibilidade de contratualizações, patrocínios, fica mais livre, faz-se num contexto institucional diferente. Por outro lado, perder esse vínculo imediato à entidade que o acolheu e o alimentou durante meio século é desconfortável, sobretudo nesta fase de mudança.

Mudança que implica exatamente o quê?

O que nós estamos agora a fazer – e isso também diz respeito à fundação e à sua direção – é assumir que a capacidade de autofinanciamento tem de melhorar e que o equilíbrio nesta relação com a universidade tem de ser refeito. Para nós, isto representa duas coisas: sermos capazes de fazer mais com menos. Menos no que diz respeito a essas transferências diretas e mais no sentido em que temos de encontrar outras formas de fazer o que queremos.

Que outras formas?

Podemos, desde logo, ser muito mais dinâmicos na busca de parcerias, estar muito mais atentos a projetos de cofinanciamento de atividades de programação ou de equipamento. Sermos mais ágeis na relação com o público. Sermos capazes de recuperar uma relação mais consistente e permanente com o público da cidade e da região.

Relação com o público que o TAGV foi perdendo nos últimos anos?

Eu gostava de voltar a ver mais estudantes no TAGV. Uma coisa que, por vezes, impressiona é o facto de os estudantes não terem uma relação tão forte quanto poderíamos imaginar quando se pensa no Teatro Académico de Gil Vicente hoje.

Essa relação com os estudantes existiu?

Já existiu no passado. O TAGV já ocupou um lugar muito importante entre o público jovem. Aliás, na revisitação que fizemos da memória do TAGV a propósito dos 50 anos tivemos oportunidade de ver, até através de fotografias, como os estudantes participavam, se instalavam aqui até de uma forma muito participativa e imediata de estar na vida pública, de estar na vida artística, que não é já a de hoje. Hoje a relação é mais fria, está quebrada, não é tão intensa.

Como é que se reata essa relação?

Nós, na direção, temos de fazer aos estudantes a demonstração, através da nossa programação e das coisas que temos pensadas para o TAGV, que eles estão a perder alguma coisa. Que o que aqui se passa lhes interessa. Porque, às vezes, as pessoas não sabem o que aqui se passa e isso começa logo por ser o problema. Portanto, se há algo que é urgente, é chegarmos às pessoas e sermos capazes de lhes comunicar o que estamos a fazer. E que o que estamos a fazer é para elas uma mais-valia, é algo que lhes interessa. Este é, de facto, um problema de comunicação. A comunicação é uma partilha de espaço comum e, se não houver essa partilha, não há encontro.

Comunicação, partilha e encontro que são elementos fundamentais para um espaço, público, como este?

Há um grande filósofo e historiador do espaço público que se chama Jürgen Habermas, que escreveu nos anos 60 um célebre livro chamado “A esfera pública”. E o que hoje se repensa é a deslocação da esfera pública. Por exemplo, a deslocação de um tipo de coabitação e de comunicação presencial, que era a praça pública – este espaço, por exemplo –, para esferas virtuais de copresença, como a net, os blogs. Muitas vezes se fala hoje, justamente, nessa esfera pública digital. Isso é muito importante para a imprensa tradicional, mas para nós também que estamos neste espaço, que vem do anfiteatro grego que, de alguma forma, já tinha recuperado a forma de convivialidade presente, presencial. O que está aqui em causa é nós conseguirmos negociar e resolver bem essas deslocações que estão a acontecer na ocupação dos tempos livres, na vida pública. E o TAGV não pode ficar passivamente à espera que os estudantes e o restante público lhe entrem pela porta dentro.

Entre as áreas da programação que já referiu está o cinema, que deixou algumas marcas fortíssimas na história da sala. É sua intenção recuperar o cinema?

Sim. Especificamente em relação ao cinema, sem dúvida. Nos anos 70/80, o lugar que o TAGV tinha no cinema era substancialmente diferente. Desde logo porque o modo como as pessoas iam ao cinema também era diferente – não tinham o cinema todo em casa, disponível a todo o instante – e isso faz muita diferença. Para nós, a questão coloca-se agora numa análise prévia do estado da programação de cinema na cidade. Coisa que estamos a fazer. E a partir dessa análise, agir. E fazê-lo de dois modos: voltar a criar mecanismos de habituação do público ao TAGV no que diz respeito ao cinema, voltando a programas às segundas-feiras, com duas sessões (à tarde e à noite). E, em parceria, naquela ideia de rede universitária, em diálogo com a direção da Faculdade de Letras [da Universidade de Coimbra], coprogramar a Casa das Caldeiras, que tem um anfiteatro com 100 lugares, que permite passar cinema alternativo e que possa implicar maior especificidade. Em parceria com a Secção de Cinema da AAC, com o FilaK Cineclube, iremos apresentar às quartas-feiras, mais duas sessões.

A Casa das Caldeiras passará a funcionar como uma espécie de sala b?

Pois, é verdade. No fundo, é esse o objetivo. Passar a funcionar como sala b na ideia da diversificação, da diferenciação da programação. E isso não implica que não tenhamos de ter um programa de divulgação e reconstrução de público. Nós precisamos mesmo de voltar a colocar o TAGV nesse espaço do cinema em que já esteve no passado. Vamos dar início já este mês de outubro às sessões “Cinema às Segundas”, com a exibição, por exemplo, do filme “O cisne”, de Teresa Vilaverde, que não está em mais sítio nenhum em Coimbra. Aliás, foi a própria realizadora quem contactou o TAGV para fazer esta sessão. Agora temos de ocupar e trabalhar este espaço, onde o cinema regressa, mas onde regressa um certo tipo de cinema.

Vai manter-se a relação do TAGV com o festival Caminhos do Cinema Português?

Esse é um exemplo de uma iniciativa que pode e deve ser mais acarinhada. É um evento que precisaria até de mais espaços na cidade, para que lhe seja possível crescer e multiplicar públicos. Nós queremos que, para o futuro, este não se resuma a um acolhimento passivo. Queremos participar de outras formas, sobretudo porque este é um festival que trata também os novos criadores e isso é muito importante para um teatro como o nosso. Sobretudo porque nos assumimos numa missão de dar espaço, dar visibilidade e, de algum modo, sustentar a aparição. Da mesma forma, igualmente em novembro, a Festa do Cinema Francês, que deverá resultar na possibilidade de ao longo do ano apresentar outros momentos de cinema francês, talvez já a partir de fevereiro e em colaboração com a Alliance Française.

2 Comments

  1. PARABENS ! Espero ainda cá estar para comemorar o Centenário !

  2. “temos de saber fazer o compromisso entre criadores emergentes e consagrados” e depois disse que preferia um espectáculo teatral ao espectáculo de Pedro Tochas, este director rege-se pelo gosto pessoal, e na função dele creio que deveria estar aberto a receber todo o tipo de artistas que tenham alguma consagração como é o caso do Pedro Tochas.

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