Madre Goa (II)

 Gonçalo Capitão

Continuamos a percorrer a capital de Goa, Panjim.

Completada a volta sugerida na semana passada, não é de desprezar uma visita ao Museu Arqueológico, que fica um pouco arredado do centro, mas ainda a distância que pode fazer-se a pé, mormente se atestar as reservas de água, antes… As peças de interesse são várias: medalhões em pedra com a efígie, entre outros, de Afonso de Albuquerque, D. João de Castro e Luís Vaz de Camões, notas e moedas representativas da administração portuguesa, carimbos oficiais, estatuária e pintura de relevo, um estandarte do século XVII evocativo de uma batalha ganha aos holandeses, máquinas de extracção da lotaria e, la crème de la crème, uma mesa pertencente à Inquisição de Goa, demonstrando que, de vez em quando, não éramos “gajos assim tão porreiros” para a rapaziada local…

Talvez para devolver parte da cortesia, o Museu inclui ainda uma sala sobre a tareia com que nos brindaram no alvor da década de 60 (entre outras ilustrações, conta-se a do General Vassalo e Silva, último Governador, na sua condição de prisioneiro).

Para terminar o dia na antiga Nova Goa (passo o paradoxo denominativo), contorne o edifício da Polícia do Estado da Índia (hoje quartel da Polícia indiana) e entre no Instituto Menezes de Bragança (uma biblioteca) para admirar, no átrio, azulejaria portuguesa ilustrando os Lusíadas.

Posto isto e sendo que o Estado de Goa está repleto de tantas outras jóias que não pudemos visitar, reserve um dia inteiro para Velha Goa que, hoje em dia, é uma terra museu, já que ninguém por lá mora, não havendo restaurantes ou cafés abertos; quando muito compra-se uma ou outra bebida e “viva o velho”!… Diga-se, aliás, que só o esplendor das suas Igrejas nos faz crer que esta foi uma das maiores metrópoles asiáticas e uma cidade que olhava de alto para a pequena Lisboa, no início do século XVI.

Seja como for, o apogeu existiu na cidade que viu chegar Afonso de Albuquerque, por volta de 1510, e São Francisco Xavier, trinta e dois anos mais tarde, mas que, contudo, parece ter vivido numa relação tumultuosa com a santidade, tais as centenas de casos de sífilis registadas pelo hospital local. O laxismo que consta de registos históricos vários decidiu casar-se com a contaminação da água potável pelos esgotos, com os mosquitos (devidamente armados com malária) e com razões militares e comerciais para pôr a população de casa às costas e a caminho de Nova Goa (Panjim).

Velha Goa, património chancelado pela UNESCO e exemplo conservado do esplendor barroco e manuelino, é, por tudo isto, um enorme museu, no qual não deve perder a esplendorosa Igreja do Bom Jesus, à qual rumam fiéis e turistas para ver o caixão de prata e vidro que contém os restos mortais daquele Santo. A fachada, o altar mor e a sacristia são outros pontos altos de uma pérola que constitui um belo rosário da presença portuguesa em conjunto com outras de que vos falarei de hoje a oito dias.

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