Evocação de D. Dinis, fundador da universidade

Manuel Augusto Rodrigues

A 9 de Outubro de 1261, dia de S. Dinis, o primeiro bispo de Paris, nascia o monarca que pelo documento precioso “Scientiae thesaurus mirabilis” de 1 de Março de 1290 criou em Lisboa o “Studium generale” ou “Universitas magistrorum et scholarium”. Neto de Afonso X o Sábio que tanto engrandeceu o de Salamanca, o nosso rei, poeta e trovador, seguiu-lhe o exemplo como notável homem das letras e de grandes realizações.

D. Dinis trocou depois Lisboa por Coimbra e em 1537 D. João III aqui o instalou em definitivo ficando como o único do País até 1911. O que seria Coimbra sem o seu “Studium”? Qual “Cariath Sepher” (cidade das letras) terá ela sabido corresponder a tão grande prerrogativa? Hoje o ensino superior público conta com 15 Universidades, 17 Politécnicos e uma de regime concordatário, e ainda 17 particulares cooperativas e outros Institutos, números que dão que pensar!

Depois do “Studium Bononiense” (1088) viriam a surgir na Europa nos sécs. XIII, XIV e XV: 23, 24 e 35 “Studia”, num total de 82! As suas raízes assentam na herança greco-latina e judéo-cristã, enriquecidas pelo legado árabe e por tradições várias. A Europa cristã nasceu dessa integração e as Universidades afirmaram-se como geradoras de um humanismo teológico, filosófico, literário, jurídico e científico. Como escreveu Hervé Carrier, foi assim que irradiou pela Europa uma cultura fundada na razão e no direito de que a democracia, a ciência moderna, o Estado representativo, a exploração do mundo e o direito internacional muito beneficiaram. E do Velho Continente propagaram-se para outras partes do globo.

A consciência de que a cidade exigia o saber, a sabedoria e a virtude dos cidadãos vinha da “Política” de Aristóteles. Reis, imperadores e papas compreenderam, fundando ou confirmando os “Studia” e cumulando-os de privilégios, o mesmo fazendo a Igreja e não poucos mecenas, de que são exemplos o “Authentica habita” de Frederico Barbaroxa (ca. 1155), a bula “Parens scientiarum universitas” do papa Gregório IX (1231), “Las Siete Partidas” e a Carta Magna de Afonso X o Sábio para o “Studium Salmanticense” (1254) e a de D. Dinis para a de Coimbra (1309) testemunham esse permanente carinho para com os “Studia” em especial para com os escolares, já patente na petição para a criação do “Studium Dionisianum” de 11 de Novembro de 1288 e na bula de confirmação de Nicolau IV de 9 de Agosto de 1290. Segundo R. Gauthier, o conhecimento era o bem supremo e a “scientia” o tesouro admirável e o dom precioso, “velut splendor firmamenti” ou “magnanimitas”, brilho esse ofuscado tantas vezes por sinais de decadência.

Ao lado do “Regnum” (Estado) e do “Magisterium” (Igreja) o “Studium” era o terceiro pilar da sociedade. Instituição medieval por excelência conheceu uma uniformidade deveras singular. Eram corporações autónomas, com os mesmos esquemas pedagógicos e graus conferidos, idêntica organização, simbologia e carácter internacional (o “ius ubique docendi” e a mobilidade estudantil).

Hoje novos desafios se levantam com a modernização das sociedades e também com a racionalidade fria do pragmatismo, da rentabilidade e da concorrência. Carrier fala do justo equilíbrio entre a identidade da Universidade e a colaboração com os avanços científicos e com o contributo a dar à resolução dos problemas que assolam a humanidade.

A reforma universitária passa pela atenção a dar à ética e à cultura a começar no seio das próprias Escolas: “Universitas semper reformanda”. Isto para cumprir a sua missão ao serviço do homem na lógica da antropologia humanista e espiritual com a defesa dos valores da justiça, do direito e da liberdade. A sociedade é exigente e está atenta.

Como diz o texto fundador elas nasceram para iluminar o mundo espiritual e temporalmente e não para se fecharem como feudos e alheias à realidade, o mesmo se deduzindo do significado da “Sapientia” do selo primitivo. Corroboram estas reflexões sobre o 750.º aniversário de D. Dinis, fundador da “Alma Mater Conimbrigensis”.

 

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