Depois de experimentar o teatro António Ferreira procura apoios para filmar Inês

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Foto Gonçalo Manuel Martins

O cinema é a sua linguagem, na realização e na produção. Como é que acontece o espetáculo de teatro no D. Maria II, com aquela que é uma das mais emblemáticas criações de Fassbinder?

Acontece com um convite da atriz Custódia Gallego, que já há muitos anos tinha a intenção de fazer as “Lágrimas amargas de Petra Von Kant”. O convite que me fez talvez resulte do facto de eu ter estudado na Alemanha, de estar ligado ao cinema…

Há, de facto, uma série de afinidades?

Sim. E provavelmente foi por essas afinidades que se lembraram de mim para encenar a peça. Apesar de eu ser do cinema, não tem sido assim tão invulgar, pelo contrário, realizadores a encenarem peças de teatro. Eu, apesar do choque inicial, aceitei. E ainda bem que o fiz.

Foi uma boa experiência?

Foi uma surpresa que se transformou numa extraordinária experiência. Eu gosto de teatro, vejo teatro com regularidade, mas nunca me tinha passado pela cabeça encenar um espetáculo. Quando me fizeram o convite, aceitei, obviamente, porque o projeto era aliciante: pelo texto de Fassbinder – através do filme –, como a maior parte das pessoas, pelo elenco [um grande elenco] que estava em causa, por se tratar do Teatro Nacional D. Maria.

O cinema e o teatro têm linguagens diferentes. Como é que chegou à linguagem do palco?

Esse era o meu maior receio, porque sempre trabalhei no cinema, porque penso sempre em termos de câmara e montagem. Mesmo quando filmo, penso na montagem e em como vai funcionar ou não.

No teatro não há montagem?

E essa é a grande diferença. As coisas são feitas a pensar no palco, na sua relação com a plateia. Eu colocava-me todos os dias nessa posição, durante os ensaios. Mas para além desta diferença, não foi assim tão difícil como eu pensei que pudesse ser, porque o trabalho base é fundamentalmente o mesmo.

Trata-se de dirigir atores, atrizes, neste caso?

É dirigir, estar atento à dramaturgia, procurar o tom certo para aquelas palavras. Neste texto em particular, até porque muitas vezes se “sentia” a língua alemã – isto sem estar em causa a qualidade da tradução, claro –, mas sentia-se em algumas frases, algumas palavras, pelo que fomos alterando e adaptando. Nesse aspeto, na verdade, o processo é bastante semelhante: trabalhar com os atores e repetir, repetir, repetir, até que aquelas palavras pareçam vir de cada um e não de uma qualquer recitação. Eu continuo a não gostar muito desse registo de recitação, pelo contrário procurei e procuro sempre que as palavras sejam uma coisa viva, orgânica. E parece-me que isso foi plenamente conseguido.

Do ponto de vista do encenador, qual foi o resultado final da encenação das “Lágrimas amargas de Petra Von Kant”?

Nós estamos muito contentes, há muito entusiasmo à volta da peça. O espetáculo tem esgotado praticamente todos os dias. Aliás, quando estreamos, a primeira semana já estava esgotada, o que não é assim tão comum.

Havia alguma expectativa relativamente a este espetáculo?

Esta peça é, realmente, um clássico. Em Portugal, já não havia uma grande encenação desde os anos 80. O facto é que há uma grande curiosidade relativamente a este texto de Fassbinder, que agora está a provar-se com a afluência do público ao espetáculo.

Como foi trabalhar com um elenco todo feminino, onde pontuam grandes atrizes?

Onde está uma atriz de Coimbra, a Cláudia Carvalho – que fez também “Embargo” –, eu já conhecia a Custódia [Gallego], que trabalhou comigo em “Esquece tudo o que te disse”, e a Isabel Ruth, claro, muito do seu trabalho em cinema. Não conhecia a Inês Castel-Branco, a Diana Costa e Silva e a Paula Mora, que é uma atriz residente do Nacional. Trabalhar com estas seis mulheres não foi, ainda que possa pensar-se que sim, nada complicado. Parte do grupo já se conhecia, através da Custódia, e a outra parte rapidamente integrou e abraçou o projeto. E o que aconteceu foi um espírito de colaboração muito intenso, porque foram muitas horas por dia, sete dias por semana, durante seis semanas, mais duas de pré-ensaios em Julho. O que aconteceu, apesar do dramatismo do texto de Fassbinder, foi que acabamos por nos divertir com o que estávamos a fazer. E isso é e foi fundamental.

O que é que pode tirar deste projeto para o seu trabalho no cinema?

Há uma coisa que aprendi e da melhor forma. O tempo de ensaio, que é muito diferente do teatro para o cinema, é mesmo necessário. Porque no teatro, o que vemos é o que é, não há possibilidade de, na montagem, ir buscar o melhor take, salvar de alguma forma uma qualquer cena. E é este processo longo de ensaio que, no teatro, nos permite descobrir coisas e ir buscar o que é necessário para o encontro com o público.

Gostaria de trazer esta peça a Coimbra e de a levar a outros palcos do país?

Claro que sim, obviamente. Até porque há uma ligação a Coimbra, há pessoas de Coimbra que fazem parte da equipa de trabalho e do elenco. E, não havendo imprevistos, a peça estará em Coimbra em maio de 2012. E também já está confirmada a ida ao Porto, Matosinhos, Bragança, Vila Real, talvez também Ílhavo e Leiria. A produção está a negociar com outras companhias de teatro para fazerem o acolhimento.

É importante que o espetáculo chegue a outros públicos?

Sem dúvida. Aliás, nós desenhamos o espetáculo a pensar na digressão. O cenário, que é uma caixa complexa desenhada pela Luísa Bebiano, quando fechada, cabe dentro de uma carrinha grande. E, só isso, já facilita a digressão.

Como é que resumiria esta sua aventura no teatro?

Eu já digo que agora vou filmar de forma diferente. Mais não seja pelo próprio processo de trabalho com os atores que, na sua essência, não é muito diferente do cinema, mas que ganha certamente se conseguirmos mais tempo de trabalho. Sobretudo para nós, que estamos do lado de cá a dirigir, é importante ver os atores a experimentar, porque isso faz com que se descubram coisas das quais simplesmente não se fazia ideia.

Pode partir daqui outra peça de teatro?

Ficou essa vontade. Tenho pensado um texto original, desenvolvido com o Tiago Sousa, que escreveu “Embargo” a partir do conto de Saramago. Vamos ver o que dará.

E cinema. Que outros projetos depois de “Embargo”?

Há muitos projetos. O que mais me prende agora é “A trança de Inês”, a adaptação de um romance de Rosa Lobato de Faria. Já filmamos um trailer que são cerca de 10 minutos do que será o filme, com o objetivo de procurar o financiamento. A história é a de Pedro e Inês, mas com a particularidade de ser contada ao longo de três épocas – um Pedro e Inês no século XIV, Pedro e Inês no século XX e, de novo, Pedro e Inês no século XXII – com a ideia condutora do amor impossibilitado, um pouco com circunstâncias semelhantes, como se fosse a mesma história contada em três tempos diferentes.

Um romance muito cinematográfico?

É. Bastante. Aliás, quando li o livro, para além de ter admirado a originalidade da abordagem do mito de Inês de Castro, pensei logo que daria um bom filme.

E também tem Coimbra, os lugares do mito e da história de Inês?

Exatamente. A nossa ideia é essa. O que queremos é fazer as personagens com os mesmos atores ao longo das três épocas, vermos o Pedro no século XIV e depois no século XXII. E a história contada desta maneira, saltando de uma época para a outra, com um acontecimento a parecer repercutir-se 600 anos depois.

É preciso financiamento para concretizar este projeto. Tem conseguido sempre fazer coproduções com outros países. É o que vai acontecer?

Já temos novamente coprodução com Espanha e Brasil, como aconteceu com “Embargo”. Aliás, a ideia é filmar nos três países, eventualmente cada uma das épocas num dos países, com o presente no Brasil, o futuro em Portugal e o passado em Espanha. O elenco também será misto. No trailer que filmamos, o Pedro é o Filipe Costa (do “Embargo”), a Inês é a Catarina Wallenstein e entraram ainda a Custódia Gallego, o Rui Unas e o Fernando Ferrão.

Este é um projeto para concretizar a que prazo?

A nossa ideia era filmar em 2012. Mas já vai ser muito difícil. Porque estamos a chegar ao final de 2011 e ainda estamos a uma certa distância de conseguir o financiamento que necessitamos. Porque apesar do dinheiro do estrangeiro, tem de aparecer sempre financiamento do país de origem. Normalmente, só quando há confirmação do apoio nacional é que se consegue entrar em certos concursos. Já temos alguns apoios, nomeadamente para desenvolvimento, do Ibermedia, como tivemos no “Embargo”.

E o apoio em Portugal?

O ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), com todas as habituais dificuldades, apesar de tudo tem funcionado. Mas posso dizer que, neste momento o que está em cima da mesa, é não abrir concurso para 2012. Tanto que nós vamos filmar duas curtas-metragens em novembro – uma para Guimarães Capital Europeia da Cultura e outra realizada no Porto –, já contratada há um ano e fomos contactados pelo ICA a dizer que não havia dinheiro. E isto é absolutamente inédito, nunca me tinha acontecido.

Chegou-se a uma fase de quase catástrofe?

Sim, sim. O cinema vive de uma taxa sobre a publicidade, coletada em todas as televisões, que depois reverte para o ICA e para a Cinemateca. Ao que parece, nos últimos três, quatro anos tem vindo a acontecer uma quebra das receitas da taxa de publicidade, mas o ICA manteve o mesmo nível de concursos e apoios, pelo que as previsíveis receitas para 2012 já estão completamente consumidas pelos compromissos assumidos para trás. A proposta é parar os concursos durante um ano para repor equilíbrio, o que significa que só voltarão a abrir concurso em 2013 e só volta a haver dinheiro em 2014.

E como é que se sobrevive assim?

Nós – a Pesona Non Grata Pictures – tivemos o cuidado de não por todos os ovos no mesmo cesto, temos uma atividade diversificada, fazemos publicidade, trabalhamos com a Disney, embora esta decisão também nos afete, até porque o cinema continua a ser o nosso ponto forte. Mas o facto é que não se percebe como é possível deixar as coisas chegar a esta situação.

Esta é a situação mais grave vivida pelo cinema em Portugal nas últimas décadas?

Eu fiz o “Respirar (debaixo d’água)” há mais de 10 anos, em 1999, e tive mais dinheiro do que tenho para as duas curtas-metragens que agora vamos fazer. Embora os custos tenham mais do que dobrado. Na prática estamos a produzir com muito menos dinheiro. A anterior ministra da cultura prometeu muito, mas não fez absolutamente nada. A nova lei do cinema, que podia mudar muita coisa, nunca chegou a entrar em vigor. Parece que este Governo quer, de algum modo, recuperar, com alterações, esta lei, que está a ser discutida há muitos anos. Porque o que está em causa é o modelo de financiamento do cinema em Portugal.

E o que defende para esse modelo de financiamento? Sim, porque o cinema necessita de financiamento?

Sem dúvida. Porque, tirando os Estados Unidos e talvez a Índia, não mais nenhuma cinematografia que seja completamente autónoma. Mesmo a inglesa, que tem a grande vantagem de um imenso mercado, é financiada pelo British Film Institut. É preciso tornar absolutamente claro que, se queremos cinema português, tem de haver uma forma de financiamento que cubra uma falha de mercado. Ou seja, o mercado potencial, mesmo a correr muito bem, o que não é de todo o caso – neste momento o cinema português tem cerca de dois por cento de quota de mercado, enquanto a média europeia anda à volta de 15, 20 por cento –, nunca seria suficiente para cobrir o custo de qualquer filme. Mesmo com uma boa quota de mercado, faltaria sempre 30, 40 por cento do custo total. E os subsídios, na minha opinião, servem para isso, para cobrirem uma falha de mercado. Se não for assim, não há nenhuma possibilidade de haver cinema português.

Que modelo defende então?

Neste momento não faz sentido que seja apenas uma taxa sobre a publicidade nas televisões a pagar o financiamento do cinema. O que tem vindo a ser defendido por um grupo de pessoas, entre as quais eu me incluo, e que é um pouco o que acontece no resto da Europa, é que deve ser taxada toda a cadeia de distribuição ligada ao cinema: salas de cinema, dvd, televisão por cabo, canais específicos de cinema por cabo. Isto permitiria reduzir o percentual com o qual cada um contribuiu, aumentando a base de contribuição.

Com que resultados práticos?

Esta possibilidade, que está desenhada, podia quadruplicar os fundos existentes. Esta seria uma parte da solução. Nós, hoje, conseguimos fazer, oito, 10 longas-metragens por ano. É um número residual e ainda por cima sempre um pouco os mesmos. E esta seria a outra parte da solução: diversificar os centros de decisão. Neste momento, concurso a concurso, temos um grupo de cinco pessoas que decidem quem filma e quem não filma. É o mesmo que dizer a Saramago que este ano escreve e Lobo Antunes não escreve, porque há um júri que decide. E isto é o que está a acontecer no cinema.

Põe em causa, portanto, os critérios de avaliação?

Claro. Porque, com toda a boa vontade das pessoas, não consigo perceber porque é que um escritor deve avaliar um guião cinematográfico, porque são coisas completamente diferentes. Não percebo como é que um professor universitário consegue avaliar um orçamento de um milhão de euros e perceber se é realista, se as rubricas estão bem distribuídas. Tem de ser o meio a avaliar as propostas. E essa é uma coisa que faz confusão a muita gente, porque o cinema é uma arte. É uma arte, mas é arte que custa um milhão de euros, portanto também é uma indústria. E o facto é que hoje estão fazer-se obras para ninguém ver. E enquanto não houver uma vaga de obras que levem as pessoas às salas e que levem as pessoas a confiar no cinema português, não há grande solução. Porque depois, também, pergunta-se às pessoas qual foi o último filme português que viram e ninguém se lembra. Há portanto que diversificar os centros de decisão. E os produtores, os autores, vão bater à porta da RTP, da Lusomundo, da Zon, da TVI, da Vodafone, e vão convencê-los a financiarem os projetos apresentados. E isto tornaria o mercado muito mais dinâmico e com uma triagem muito mais democrática.

Acredita que é disso que se trata?

Claro. Porque neste momento, basta cair, ou não, na graça e no gosto de quem está do outro lado. Porque o que temos hoje é uma política de gosto. E é assim que se decide quem filma e quem não filma. Esta lei traria estas duas alterações fundamentais. E, posso dizer, que o secretário de Estado da Cultura, está de acordo com este princípio. Mas, enfim, temos 30 anos de boas intenções e ainda nenhuma se concretizou. Vamos ver se será agora.

Qual é o papel que cabe neste quadro à recém criada Academia de Cinema, cuja direção integra?

A Academia de Cinema não vai fazer política, não é uma associação, não é um sindicato. O grande objetivo da Academia de Cinema é dar visibilidade às obras. E será também a única organização que consegue congregar todos os profissionais do cinema em Portugal, desde o eletricista ao ator principal. Neste momento, há 350 pessoas inscritas. Uma das primeiras grandes iniciativas será a realização dos prémios anuais, à semelhança dos Goya, em Espanha, ou dos Oscar nos Estados Unidos, com os próprios membros da Academia que nomeiam os filmes e as diversas categorias.

Gente de dentro do cinema?

Exato. Como em todas as academias. Mesmo na Academia Europeia de Cinema. O que está absolutamente estabelecido, é que nós não somos um sindicato, não vamos fazer leis. A ideia é promover o cinema português. Desta forma, por exemplo, o candidato português ao Oscar deverá passar a ser escolhido pela Academia de Cinema.

Não se arrepende de ter uma produtora como a Persona Non Grata Pictures em Coimbra?

Eu sou de Coimbra, gosto muito de Coimbra. Já vivi em vários sítios, mas escolhi Coimbra para viver. E costumo dizer que, se é para sair de Coimbra, então vou para uma cidade realmente grande, como S. Paulo ou Londres. Não vou para Lisboa, que estou a uma hora e 45 de comboio. Agora, obviamente – e eu acabei de testemunhar isso na temporada que passei a preparar a peça de teatro –, que em Lisboa se encontra ocasionalmente muita gente que está em lugares de decisão. E isso, provavelmente, faz muita diferença. Mas há maneiras de contornar isso, com mais esforço, mais trabalho. Mas no cinema pode estar-se em qualquer lado e nós estamos aqui, em Casconha [Cernache] muito bem.

De Coimbra, que tipo de apoio tem?

Até há muito pouco tempo, ainda íamos às reuniões e perguntavam-nos se éramos mesmo de Coimbra, se trabalhávamos mesmo cá. E nós respondemos que sim, que fazemos cá vídeos da Disney, do Camané, enfim… As instituições ou estão desatentas ou não querem saber.

Estão desatentas ou não querem saber?

Estão muito desatentas. Há muitos anos que Coimbra não tem política cultural absolutamente nenhuma. Apoia-se este, aquele e aqueloutro para não criar ondas, mas não há uma política cultural destinada a fazer as coisas crescerem, a dar visibilidade à cidade, como se faz em câmaras mais pequenas como as de Vila do Conde, da Feira, de Viseu, para já não falar na Câmara de Lisboa, que realmente tem tido uma política cultural muito forte ao longo dos últimos anos e isso envolve dinheiro, mas que também terá o seu retorno ao nível do turismo, da visibilidade.

E, de facto, a indústria da cultura faz diferença numa cidade?

Sem dúvida. Há gente que vai, enche hotéis, come nos restaurantes. E se isso for uma coisa continuada vão-se criando hábitos. E, em Coimbra, continua a passar-se um dia e uma noite, porque depois não há mais nada para fazer. Quanto a nós, em termos de apoio, tem sido zero. No caso do “Embargo”, a Região de Turismo ofereceu algumas dormidas. E, neste momento, finalmente, fizemos compreender os serviços da autarquia que não nos pode estar a pedir dinheiro para filmar na rua, com a isenção das taxas. Mas chegamos a pagar taxa de ruído por termos um gerador a funcionar, quando nós estamos a mostrar a cidade. Que vai ficar para sempre registado, que vai passar em televisões, em festivais no mundo inteiro. E posso dizer que o apoio institucional de Coimbra é este. Mas nós continuamos a trabalhar em Coimbra e vamos continuar a trazer gente para filmar em Coimbra.

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