Custa-me dizê-lo…

Lucílio Carvalheiro

Os portugueses decidiram repudiar o regime político do Estado Novo (25 Abril 1974), dando o salto da “necessidade” para o patamar da “Liberdade”. E a força motriz dessa revolução foi o entusiasmo por um ideal: Democracia Regime político num Estado de Direito.

Não estarei enganado se disser que esse ideal político revolucionou, positivamente, as condições económicas dos portugueses, em vez de ser moldadas por essas condições.

Custa-me dizê-lo: nos dias que correm, subestimamos a força da “Liberdade” e as possibilidades que esta nos dá de conquistar os bens da “necessidade”. Vivemos num simulacro democrático.

Custa-me dizê-lo: o contraste entre o “ideal” democrático e a “ideia” de democracia é, na nossa sociedade, bem patente. Subsiste, apenas, a evolução da “ideia” democrática subjacente, a realidade económica – ficamos com a “ideia” política, ignoramos o “ideal” político.

Custa-me dizê-lo: refira-se, a propósito, que os nossos rapazes e raparigas, entre os 20 e os 40 anos, sem referências “ideológicas”, todavia educados, formados (formatados?) em “ideias” materialistas avulsas, avisam-nos (Movimento dos Indignados) que estão disponíveis para tomar compromissos com a extrema-esquerda ou com a extrema-direita, e isto leva-nos a ponderar estarmos perante novas realidades, porventura irremediáveis.

Custa-me dizê-lo: os partidos políticos democráticos, tendo abandonado os seus ideais políticos, estão escravizados pela ideia económica – “tout court” –, o que torna evidente que não os podemos confrontar por fora; igualmente, cegos de ideal político como estão, nem sequer fazem qualquer esforço para se melhorarem por dentro.

Custa-me dizê-lo: a arte política é fazer o possível, nunca impor o impossível. Decerto: nenhuma sociedade (país) progride se não conseguir absorver (aprender) os ensinamentos dos estudiosos (Académicos). Todavia, esses conhecimentos são para serem aplicados à medida e em condições que as empresas, famílias, a sociedade em geral as possam comportar; caso contrário – “ditadura da troika” – aplicadas de forma radical (três anos em vez de 10 ou 15), entram em conflito, porventura acintoso, com as relações sociais e, ultrapassando-as, então estas vão rebentar.

Custa-me dizê-lo: este meu “manifesto opinativo” é a verificação da impotência de toda a política como um “ideal”.

Custa-me dizê-lo: Estamos à deriva….

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