Aviso à navegação

Aires Antunes Diniz

Não fosse o trágico momento que vivemos, rir seria a consequência mais provável da observação do estilo errático do governo actual. De facto, as notícias que foi dando ao longo do processo orçamental apontavam em sentido totalmente diverso do que veio a acontecer. Um dos casos mais flagrantes foi a taxação abusiva das pensões de reforma e seu congelamento, que se acrescentou ao corte salarial deste ano de 2011. Trata-se no conjunto de políticas penalizadoras dos trabalhadores que se transformam inconscientemente em factores desmotivadores de quem trabalha e produz. Por isso, alguns jornais falam já aumento de depressões e consequentes perdas de produção.

Tudo nos avisa de que esta governação não serve o país. Mas, tudo podia ser diferente se, como antes, como nos recorda Carlos Malheiro Dias, “frequentemente recorreu Portugal, nesse período remoto, dos mestres da Escolas Universitárias mais antigas, que vieram ajudar a acender o novo farol da Cultura, erguido na colina de Coimbra, e que haveria de guiar com o progresso operado na ciência astronómica as esquadras descobridoras de Portugal, cujos vastos empreendimentos náuticos foram vigiados e orientados pela ciência e não pela cegueira audaz dos navegadores.”1 Claro que não foi bem assim porque a Universidade só veio para Coimbra após termos descoberto a Índia, o Brasil e demais longínquas paragens. Mas, também é certo que nada se descobre sem uso inteligente da ciência.

Na verdade, nos gráficos e números disponibilizados pelo governo só vemos uma política vesga de espoliar os trabalhadores dos seus salários e reformas, desprezando qualquer esforço de pesquisa de consumos desnecessários no aparelho de Estado. Trata-se de algo que implica esforço de um Estado que parece deixar tudo ao “deus dará” como se Deus justificasse toda a má governação. Quem sabe de finanças públicas não se contenta com o trabalho escasso de racionalização das contas públicas do governo. De facto, o aparecimento súbito do desvio colossal das contas públicas, tanto na Madeira como no Continente, mostra o desleixo como são executados os orçamentos.

Se tal não acontecesse, podíamos pensar que o defeito das contas públicas podia ser atribuído a quem ensina ou ensinou nas universidades portuguesas. Pode por isso concluir-se que os desvios colossais na despesa, que sobrecarregam quase todos, se devem à incapacidade dos sucessivos governos. Não admira que muitos portugueses tenham aderido às manifestações de 1 e 15 de Outubro. Mas, sendo esta última o resultado de uma mobilização global, mostra-nos o caminho possível que quebrará ainda mais os poderes “ocultos“ que emperram o funcionamento da Economia Global e Local. E isso não deixa de ser uma esperança para todos nós.

1 AAVV – A Cultura Portuguesa no Brasil, Porto, 1935, p. 75

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