As contas da República

Aires Antunes Diniz

Andam avariadas as contas de cada um de nós por amor às contas da República, das quais nos vão dando notícia cada vez mais triste e angustiante. Calhou agora falar-se das contas da Madeira, e só porque por lá se está em campanha eleitoral acesa e cheia de paixão naquela terra onde o clima é mais doce.

Tal como noutros momentos de mudança, tudo se faz com paixão pouco serena, como aconteceu com as comemorações dos cem anos do nascimento de Alexandre Herculano, “não se fez assim, e à parte a comemoração serenamente académica da Universidade de Coimbra e da Academia Real das Ciências, rara foi aquela que não descambasse em comício republicano ou em batuque jacobino”. 1 E nesta questão de contas, habituado um país a não as fazer, quase sempre por amor à paz entre os homens, somos confrontados com a miséria que a todos espreita e em particular, coisa grave, os mais pobres e humildes. Torna tudo ainda mais injusto e gerador de paixões que nunca serão violentas. Acredito.

Confesso-me admirador do Dr. Alberto João Jardim e da sua prosápia com que “ganha” sempre mais uns muitos milhões para a Madeira. Julgo que ele tem uma habilidade rara de aproveitar as fragilidades da maioria compacta (PS/PSD/PP) que governa a República, transformando-a num conjunto de pobres tontos. Com ele, as pobres instituições da República parecem coisas só para “inglês ver” e os tribunais não funcionam com ele. Entretanto, a Madeira mudou para melhor, mas não para todos, pois a pobreza e a miséria continua lá. Pelo meio deixou Jardim muito dinheiro mal gasto.

Há uns anos os nossos verões foram animados pela luta dos accionistas do BCP, esse banco mal gerido e sem transparência, onde dois madeirenses, Jardim Gonçalves e Joe Berardo, foram protagonistas de uma história que ninguém contou. Também agora ninguém conta a história das sucessivas avarias das contas dos bancos nacionais transformados em lixo. De facto, alguma razão terão as empresas de “rating”. Mas, não toda pois não previram estes buracos da Madeira!!!

Andam agora todos a falar, até o PGR acordou e o Tribunal de Contas fala até do muito que fez, mas as contas da República mereciam muito mais atenção por amor dos pobres e humildes deste país, chamados agora a pagar os desvarios dos que mal mandam porque “não sabem nem querem” fazer melhor. Querem só ser bons alunos.

E quando termina o 101.º ano da República, recordemos os escândalos da Monarquia, cujo epicentro ocorreu na Madeira com o caso Hinton, e de que Portugal se distraiu, aclamando a República a que quase todos os culpados dos males da Monarquia adesivaram.

Façamos agora as contas da República, desfazendo os mitos com um acto de contrição ou autocrítica, conforme a nossa opção. Precisamos.

1 Echos do Liz, Semanário Ilustrado, Leiria, 1 de Maio de 1910, ano IV, n. 174, p. 1, coluna 2.

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