Aguenta-te

Salvador Massano Cardoso

Como qualquer cidadão deste país, minimamente responsável, sinto uma certa ansiedade e mal-estar devido às circunstâncias em que mergulhámos nos últimos tempos.

Ouço muitos comentários e outras tantas interrogações a propósito da crise que vivemos. “Como foi possível isto tudo”? “Há necessidade de serem aplicadas tão gravosas decisões”? “Por que razão não hão de ser responsabilizados os autores de tamanha façanha”?

Quanto à primeira, “como foi possível isto tudo”, não há que abrir a boca de espanto, era o que mais faltava! Há por aí uma catrefada de sacanas capazes disto e de muito mais.

Até parece que desconhecem a essência da humanidade. Nascemos ou evoluímos a partir de outras formas de vida, que ainda perduram em nós, e essas formas ou maneiras de ser despertam certos modelos de sobrevivência, aniquilando os outros, enganando-os, explorando-os ao máximo e sem grandes complexos de culpa.

A humanidade nasceu torta e tarde ou nunca se vai endireitar. Poderão contra-argumentar com a existência de pessoas de bem, amorosas e dedicadas ao próximo, e depois? Será que conseguirão travar ou eliminar as tendências menos positivas dos outros?

Não! Nem à custa de leis, nem à custa de princípios religiosos, os oportunistas não são são capazes de obedecer a regras éticas universais. Este é que é o verdadeiro “pecado original”, e não há água benta capaz de o lavar.

Tenho algumas suspeitas, como muitos outros, quanto às medidas enunciadas pelo governo, se serão ou não as mais corretas. Inquieta-me saber se irão ter o efeito desejado. A título pessoal, confesso que tenho muitas dúvidas, cimentadas pelo comportamento e análise de alguns teóricos de “ideias gerais” que sabem como ninguém explicar tudo a todos, pedindo que aceitemos com naturalidade os sacrifícios que nos são impostos.

Os ares compungidos com que transmitem as opiniões incomodam-me, porque, por vezes, consigo vislumbrar alguma soberba por detrás das suas máscaras faciais, dando a entender que as medidas duras, e que as vão ainda ser mais penosas, têm que ser aplicadas. Tem que ser! Pois é, tem que ser porque não lhes vai doer.

Que conforto! Estes comportamentos repetitivos fazem-me lembrar um episódio contado por António Lobo Antunes. O escritor, quando estava de papo para o ar numa cama do hospital, a pensar como qualquer mortal na sorte que lhe saiu entrementes, depois de ter sido operado a um cancro, era visitado, amiúde, por pessoas que construíam os seus sorrisos no corredor. Houve apenas um, o Júlio Pomar, que, tendo sofrido uma história semelhante, lhe disse, ao entrar no quarto: – Aguenta-te!

Quanto à sugestão de chamar à barra do tribunal os responsáveis pela situação atual as opiniões dividem-se, os mais “populistas” ou “básicos”, como eu, consideram ser uma ideia interessante, mas os mais evoluídos, os mais cultos, os fazedores de opinião e os ilustres pensadores do país contrapõem com os perigos de práticas justiceiras, justicialistas ou coisas parecidas.

Está bem, pronto, não vale a pena levar a julgamento essas criaturas, não é porque não merecessem – estou convicto de que iríamos assistir a verdadeiros espectáculos capazes de fazer inveja aos maiores artistas da representação nacional -, mas só pelo facto de não acreditar que se fizesse qualquer tipo de justiça. Em última análise ainda sobraria para os cidadãos. Afinal não foram eles que os elegeram? No entanto, o cidadão comum poderia defender-se dizendo que julgava que eram sérios, honestos e que queriam ir para aqueles lugares para defender o interesse público.

O pior é que a democracia tem destas coisas, tanto permite que o poder seja entregue aos mais honestos como aos outros, e estes sabem como ninguém que é muito fácil subir na política e atingir os seus objetivos. A natureza humana, dita perversa, primitiva, algum dia iria desperdiçar estas oportunidades? Nunca. E agora? Agora aguenta-te.

Até à próxima, porque o que vemos não são erros, são puras manifestações do “pecado original”, não da história da carochinha que nos ensinaram em miúdos, mas do outro, do verdadeiro, do que está na base da evolução do homem, e que irão ocorrer até aos finais dos tempos…

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