A inquietude social instala-se. Haverá que a controlar?

Lucílio Carvalheiro

Portugal está mergulhado num pesadelo. A prudência devia ser a qualidade política maximizada pelos partidos políticos, os democráticos, na contingência aberta pela dívida externa nacional, dos privados e Estado, mais daqueles que deste.

Não anda bem o sentimento geral dos portugueses, e é bem patente o descrédito pelo Orçamento do Estado para 2012, tanto na área económica, como social; acentua-se o divórcio entre o Governo e os governados; com a aprovação garantida (maioria parlamentar dos partidos do Governo), todos os caminhos vão dar à mesma encruzilhada: a inquietude social instala-se.

Ora, se é certo que ao Governo da Coligação PSD/CDS compete, por imposição factual, corrigir os desvios do passado (de 3 décadas) através deste Orçamento que, convenhamos, é um documento, exclusivamente, técnico-contabilistico, já não é compreensível que, politicamente, seja o Governo encorajado a aceitar, passivamente, erros estratégicos para o nosso futuro colectivo, muito superiores, muito mais gravosos a muito curto prazo -2 a 3 anos; a experiência diz-nos que qualquer empresa que altere, radicalmente, a sua funcionalidade, sem cuidar da “retaguarda”, fica insolvente dentro desse espaço temporal.

Pois bem. Parece que a prudência é coisa estranha ao PSD, ao CDS, ao PS. Os dois primeiros, no Governo, chantageiam o terceiro, maior partido da oposição, de tal forma que este, encurralado por ter subscrito o Memorando com a Troika, evidência o ar hesitante e comprometido de quem deve a toda a hora pedir desculpa; abdica da sua consciência do passado – um rumo, uma política (boa ou má tinha-a), e do presente está perturbado e tímido e não se apresenta aos portugueses com a firmeza de quem os quer ajudar.

Dito isto, é minha convicção que só ao PS cabe a responsabilidade de confrontar, com igual veemência e legitimidade democrática, a vontade granítica da Troika/Governo no equilíbrio do “deve” e “haver” orçamental. Acrescente-se que só assim evitará esvaziar, substantivamente, o seu poder como elite humanista (primeiro as pessoas) e dessa forma limitar e reter um equilíbrio social durante a transitoriedade da “Ditadura da Troika”, Neste confronto político de posições evidenciada ficaria a verdade sociológica.

Sendo estes os meus argumentos, o voto contra ao Orçamento do Estado para 2012 terá todo o cabimento, mas se interpretado, como espero, como voto político estratégico e não de carácter técnico, ou seja: dizer à Troika, aos mercados, que os portugueses são pessoas de bem, honrados, responsáveis e que ao Governo de Portugal deve ser propiciado um ritmo mais vagaroso de austeridade, mais seguro, que faça descer a temperatura, que não sendo possível curar a febre instalada – inquietude social – que se evite as “convulsões febris” (sociais), controlando-as.

Em síntese. Por paradoxal que à primeira vista possa parecer, o vota negativo por parte do PS (só político, repito) ao Orçamento do Estado para 2012, seria a expressão de um relevante serviço ao país, ao Governo. Nesta hora difícil, seja-me permitido exortar o PS em sobrepor as “Razões de Estado” às “Razões de circunstância”.

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