A ecologia da natureza e do homem no discurso do papa

Manuel Augusto Rodrigues

Qual o sentido da alusão aos movimentos ecológicos feita por Bento XVI no seu célebre discurso no parlamento europeu? Tomando como ponto de referência um artigo de Alberto Indelicato, diplomata e último embaixador na Alemanha comunista, analisemos algumas ideias da histórica intervenção do Papa Ratzinger.

Bento XVI efectuou uma das viagens mais significativas do seu pontificado que ficará para o futuro como um acontecimento marcante. Basta pensar na ida ao parlamento alemão e na visita a Erfurt onde Lutero fez os seus estudos, e nos encontros com delegações protestantes, hebraicas, muçulmanas e católicas. Uma deslocação que ficou assinalada não pelo seu carácter apologético ou político, mas pelo desejo de estar com o povo e falar de Deus, como ele próprio disse.

No discurso dirigido aos deputados alemãs dirigia-se a todos, cristãos e não cristãos, para que ultrapassem os limites da sua razão, limitada pela redução do positivismo contemporâneo. A razão de Bento XVI é um apelo a sair do bunker em que a modernidade nos pretende colocar e da aridez quase desértica da sociedade hodierna, carecida de valores e embrenhada de um relativismo que se manifesta a todos os níveis. Na sua intervenção abraçou o seu país natal e o mundo, com uma atenção particular para com a Igreja, deixando uma marca especial, para não dizer uma grande surpresa, mesmo entre os mais prevenidos.

Disse o Papa: “É claro que não faço propaganda de um determinado partido político – nada me é mais estranho neste momento. Quando na nossa relação com a realidade há algo que não funciona bem, então devemos reflectir seriamente sobre o todo, e todos somos levados à questão acerca dos fundamentos da nossa cultura”.

E prosseguiu: “Seja-me concedido fixar-me ainda um momento neste ponto. A importância da ecologia é hoje indiscutível. Pessoas jovens vêem que nas nossas relações com a natureza há algo que não está bem”. E continuou: “A importância da ecologia é hoje indiscutível. Devemos ouvir a linguagem da natureza e responder-lhe coerentemente”. Mas, como depois afirmou, desejou enfrentar ainda um ponto que hoje como ontem se omite frequentemente: existe também uma ecologia do homem. Também o homem possui uma natureza que deve respeitar e que não deve manipular a seu belo prazer: “O homem não é apenas uma liberdade que se cria a si mesma. O homem não se cria a si próprio. Ele é espírito e vontade, mas também é natureza, e a sua vontade é justa quando ouve a natureza, a respeita e quando se aceita a si mesmo pelo que ele é, e que não se criou por ele mesmo. Só assim e não de outra forma se realiza a verdadeira liberdade humana”.

Se a cultura europeia, come disse o Papa, nasceu do encontro de Jerusalém, Atenas e Roma, onde estão por outro lado os verdes alemães? A referência aos movimentos ecológicos enquadra-se precisamente no seu contexto próprio. Bento XVI fez um discurso “alto”, de tipo mais filosófico do que político. A alusão à ecologia não é estranha à identidade europeia e às tradições que a constituem, a hebraico-cristã, grega e romana. Como? Bento XVI vai directamente à consciência. Sem citar a Sharia sem a mencionar. Afirmou que o cristianismo, de modo diferente das outras religiões, não dita normas jurídicas. Mas a Sharia diz aos muçulmanos que coisa devem fazer e fá-lo do ponto de vista jurídico, ao lado da lei.

Mas a maioria não é tudo. O Papa admite que as leis devem ser feitas pela vontade popular, mas há um perigo: e se a vontade popular é má? Então o ponto reside na diferença entre uma consciência em que o direito é ditado pela natureza – diz-lhe da consciência, e em definitivo do espírito divino que reside na consciência dos homens – e uma visão positivista que aceita apenas só como lei o que está escrito nos códigos que, como sabemos, são falíveis e tantas vezes sujeitos a ideologias ou a circunstâncias e interesses de vária ordem que diminuem e destroem o homem em troca de realidades materiais e financeiras. A actual crise europeia e mundial espelha bem a falta de ética de tantos governantes e responsáveis da “res publica”. Isto no séc. XXI!

No recente doutoramento “honoris causa” de Xanana Gusmão, este, na sua intervenção, lamentou com toda a justiça que o mundo perdeu “a subtileza de ser humano”: “A liberdade ficou subjugada pelos interesses dos poderosos, a democracia violentada para a defesa dos mais fortes, os direitos humanos espezinhados pelos interesses económicos e a justiça restrita aos segmentos mais frágeis dos colectivos, compartimentados em cada país, por obediência a outro”.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*