A crise é (também) de alegria e de esperança

Mário Nunes

Os portugueses, na generalidade, cultivam um espírito alegre e até conseguem, por vezes, brincar com o infortúnio e a desgraça, para suavizar e esquecer a frustração, o desespero, o desânimo e o pessimismo, resultantes de momentos desagradáveis e negativos para a pessoa e a comunidade, criando apropriadas “charlas” jocosas, satíricas, irónicas e de censura para diluir o mal. É uma característica que averbamos, embora não seja exclusiva nossa, pois outros povos a exibem.

A crise que nos agride e amarfanha e que se derrama sobretudo na Europa e na América, tem transformado a natural boa disposição nacional, roubando o sorridente semblante e substituindo, gradualmente, o humor fresco e sadio, por uma máscara amorfa, de infortúnio e desprovida do fulgor e alegrias usuais, deixando rostos acabrunhados, infelizes, pensativos, abúlicos, especialmente nas classes média, pobre e mais pobre. Reside nelas um sentimento expressivo de revolta, de impotência e de desânimo interior, que se mostra no rosto e se estende ao diálogo com os amigos e ou conhecidos, onde a conversa assenta, invariavelmente, na miséria trazida pela crise.

Atente-se, por exemplo, nas reportagens televisivas dirigidas aos cidadãos, que quando interpelados evidenciam, nas respostas, o que lhes vai na alma. O brilho dos olhos e o indisfarçável mal-estar revelam alguém inconformado, desiludido, descrente e apreensivo do futuro. Este aspecto físico e psicológico é sustentado nos discursos, entrevistas, conversas, opiniões, esclarecimentos e outras intervenções dos políticos, economistas, comentadores, agentes sociais, religiosos e de responsáveis de outras áreas da sociedade que, normalmente, acompanham as palavras com uma cara de sexta-feira santa. Não há sorrisos e otimismo, prevalece a escassez da esperança, diminui o estímulo para vencer e falta o orgulho de sermos portugueses e termos ultrapassado tantas “tormentas” ao longo da nossa multissecular história. São discursos que escurecem o coração em lugar de trazer ânimo, conforto e desanuviamento, um amanhã melhor.

Desde o Senhor Presidente da República, aos Ministros e Secretários de Estado, até aos dirigentes das diferentes instituições relacionadas com a vivência humana, o discurso é, geralmente, portador de tristeza, de angústia, de infelicidade, de catástrofe, de túnel às escuras, tornando mais cinzento ou negro o cenário que envolve a nação portuguesa. Recebemos, amiúde, notícias de mais austeridade, de mais desemprego, de aumento do déficite, da desagregação da economia, da turbulência financeira, de derrapagens abissais nas despesas, de buracos desconhecidos, de maior endividamento a curto e médio prazo, de diminuição das exportações e aumento das importações, da redução dos salários, de cortes em sectores fundamentais do país e outras desagradáveis novidades, com a frieza própria dos algarismos. Medidas que deviam ser bem explicadas e mostrarem outra fisionomia dos oradores, são embrulhadas em rostos frios, distantes, austeros e sem cuidar que não basta deixar o recado.

Os portugueses precisam de ouvir discursos positivos, palavras de coragem, frases de esperança, pois ouvir mensagens carregadas de derrotismo, anunciando que estamos na corda bamba, dispensam, porque sentem todos os dias e a toda a hora as dificuldades com que se deparam, sem enxergar a desejada reviravolta.

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