“Em Portugal, o TGV é um acumular de equívocos”

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Foto de Carlos Jorge Monteiro

Augusto Mateus fala da economia nacional e dos desafios regionais. O ex-ministro da Economia reconhece a importância de um comboio de velocidade elevada no reforço da importância de Lisboa a nível internacional. “Mas isso tem um tempo para ser feito”, diz.

Tem defendido que “Portugal deve virar-se de novo para o mar”. Como?

Em primeiro lugar, assumindo aquilo que é a nossa posição no mundo e na Europa e valorizando o facto de Portugal estar posicionado estrategicamente numa zona marítima. E se Portugal se posicionar assim na Europa acabamos com algumas pequenas divisões estratégicas. Eu não conheço mais nenhum país do mundo em que, a 200 quilómetros do mar, se diga que estamos no interior.

E quais são os grandes desafios para Portugal?

São obviamente aqueles que advêm de encontrar uma posição que é imediatamente internacional. Para valorizarmos esta posição não podemos ser apenas portugueses, temos que ser europeus. Não podemos pensar apenas em Portugal e no que produzimos. Temos que pensar naquilo que se produz na Europa, particularmente em Espanha. Os nossos portos, para serem valorizados, têm que ser portos de corredores de desenvolvimento que não são os nacionais. Os portos da região Centro, por exemplo, ou são portos do corredor de desenvolvimento de Portugal-Espanha, com ligações à Europa Central, Itália, França entre outros países, ou não se conseguem valorizar.

E ainda o não são?

Não. De maneira nenhuma. Os portos da região Centro são infraestruturas. Mas um porto é mais do que isso. É um sítio onde eu tenho facilidades para importar e exportar, enquanto plataformas de serviços.

Mas foram feitos investimentos muito significativos nos últimos anos. Quer dizer que não foram os mais corretos?

Nesta fase, mais vale pensarmos no que vamos fazer com esses investimentos do que analisar se foram os mais corretos. Estão feitos, vamos valorizá-los. Os dois portos são muito diferentes. O da Figueira é um porto muito especializado, muito associado à localização de fábricas de celulose e papel na região, onde há fábricas muito importantes. Portanto, é um porto que precisa de consolidar essa especialização.

E pode ser mais do que isso?

Era preciso que houvesse a possibilidade de atrair, em articulação com a diversificação do porto, outras atividades, o que não é absolutamente essencial, em minha opinião. Obviamente, outras atividades exigem alguns investimentos mais pesados do ponto de vista da própria expansão do porto. Mas o porto da Figueira tem que se tornar muito mais competitivo na sua especialização. E tem que obviamente procurar estudar a sério como é que pode funcionar como porto de atividades que não estão diretamente localizadas na Figueira. Por exemplo, terá tudo a ganhar com a aceleração das relações da região Centro com Castelo e Leão.

E para quê?

No desenvolvimento, Espanha tem uma espécie de um “Y” que liga a centralidade de Madrid com toda a zona de forte expansão Valência-Barcelona e depois com o País Basco em articulação com a França. No coração disto, fez-se o desenvolvimento recente de Saragoça enquanto plataforma logística, com lógica de porto seco. Saragoça limitou-se a perceber que estava à mesma distância de Madrid e Barcelona e mais perto do que estas duas cidades, do centro da Europa.

Espanha é, obrigatoriamente, uma oportunidade para os portos do Centro?

E o contrário também pode ser verdadeiro. Para os portos da região Centro seria importantíssimo aquilo que é a articulação a norte do corredor de desenvolvimento crucial para Espanha, que liga Castela e Leão com o País Basco e com todo o litoral, da Cantábria à Galiza. Esta lógica em que Portugal, através da sua região Centro, pode oferecer portos a Espanha neste corredor a norte e que Espanha pode oferecer aos portos portugueses massa crítica, dimensão, procura e valorização de investimentos, é, obviamente algo que deve ser estudado. Considero que o desenvolvimento dos portos, particularmente o da Figueira e o de Aveiro, devia ser pensado numa lógica de dar vida a este corredor de desenvolvimento organizado e intensificado.

Mas esse já é um namoro antigo.

É verdade. É um namoro que já vem de longe e que é interessante, porque tem uma base económica que às vezes é esquecida. A especialização de Castela e Leão e da região Centro tem coisas muito parecidas. Eu próprio tive a oportunidade de coordenar um desses muitos estudos que se fazem com financiamentos europeus, que se chamava Mobilidade, Inovação e Território e que pretendia fazer desse namoro não um mero corredor de passagem, mas potenciar a criação de empregos, de empresas, de desenvolvimento.

Mas, na prática, nem sempre as coisas acontecem como se planeiam?

Nem sempre, é verdade. Na prática é difícil as regiões entenderem-se. Muitas vezes nós tornamos difícil e pomposo o que é fácil. Pensamos sempre nos grandes investimentos, nos papéis que assinamos. Quando estas coisas se fazem no dia-a-dia, ligando universidades, empresas, infraestuturas e plataformas de serviços.

A crise acentua esse individualismo ?

A crise deve ser vista sempre de duas maneiras. Tal como um iceberg, ela tem a parte que se vê e que é de destruição. Ao olhar para a nossa situação, qualquer pessoa vê a parte negativa da crise. Há pessoas desempregadas, há empresas que fecharam, há coisas em que a procura diminuiu, há incerteza e aflição em muitas pessoas. A parte invisível é o que nós fazemos com a crise. Claro que podemos baixar os braços e nada fazer. Mas a crise também é um espaço de reavaliação e oportunidade. Muitas coisas ficam mais baratas, a espuma do dia-a-dia desaparece. As pessoas e as empresas focalizam-se no essencial. Por isso, acredito que esta crise poderá ajudar na expulsão de muitas despesas que não são sustentáveis, ajudando a recentrar o essencial, do ponto de vista das empresas, das famílias, das câmaras. Espero, em particular, que a crise ajude as câmaras a trabalhar em conjunto. Como é que a Figueira se há de desenvolver sem que Coimbra se desenvolva? E vice-versa. E é o desenvolvimento de Coimbra e da Figueira articulado que vai propiciar novas oportunidades aos concelhos vizinhos. Assim como as articulações do Baixo Mondego com as zonas de Leiria e de Aveiro podem contribuir para um conceito de desenvolvimento nacional.

Que lugar podem ocupar os portos da Figueira e de Aveiro nesse conceito de desenvolvimento?

Se nós olharmos para a Figueira, temos que avaliar a dimensão turística, não do porto, mas que tem que estar articulada com ele. A relação com o mar na Figueira é completamente diferente, em muitos aspetos, da existente em Aveiro. Em Aveiro, destaca-se a presença da universidade muito próxima do porto, bem como a dimensão da Ria que tem, obviamente do ponto de vista da natureza e da sustentabilidade, desafios muitíssimo importantes. Mas o próprio porto fez investimentos e tem a possibilidade de atrair um conjunto de empresas que se podem implantar com vantagem e usufruir das facilidades criadas. Isto é, enquanto em Aveiro eu posso contar com o porto, que é também uma zona de localização empresarial, na Figueira, acaba por se sentir uma maior necessidade de ligação ao corredor que articula a França com o norte de Espanha.

Estes portos já são portas de oportunidade para os empresários português?

Serão, quando formos capazes de potenciar todos os tipos de transporte, valorizando as posições que devem ser assumidas pelos diversos pólos urbanos da região. É urgente, por exemplo, acabar com a loucura de não valorizar o que é a posição da Guarda e de Vilar Formoso. Também estive envolvido na conceção do projeto de construção de uma grande plataforma logística que permitisse o aproveitamento do facto de haver milhares de TIR a circular nas estradas da região com necessidade de espaços para agregar e desagregar cargas. A rendibilidade do transporte de mercadorias tem muito que ver com o que se leva e o que se traz. Se eu levo carga e venho vazio, a rendibilidade baixa muito. Se nós, no tal percurso de 200 quilómetros pudermos trabalhar com soluções de mobilidade de mercadorias muitíssimo mais adaptadas, estamos a criar respostas para novos mercados. Para os que exigem veículos mais pequenos, mais especializados, a própria combinação com o caminho-de-ferro, com o transporte rodoviário, com os portos. Hoje, o centro da Europa está mais longe de Portugal e ganhamos em não tentar fazer tudo de TIR. Os portos também ganham muito com aquilo que é o transporte marítimo de curta distância, que permite ligar Portugal à França, Reino Unido, à zona da Flandres. E depois, a partir daí, aproveitar mercados mais vastos.

Neste processo de aproximação, que papel poderia ter o TGV?

Eu diria que o TGV em Portugal é um acumular de equívocos. Mais do que um TGV, é fundamental para Portugal, uma Lisboa mais forte, do ponto de vista internacional. E Lisboa ganha muito se for menos pesada à escala interna. Obviamente que o TGV é relevante para uma Lisboa internacional que fica no mesmo mapa de Barcelona e Madrid. Mas tem um tempo para ser feito. E não é o TGV, é um comboio de velocidade elevada, de bitola europeia, que ponha rapidamente pessoas ao longo de Madrid e Lisboa. Tal como precisamos da valorização da Linha do Oeste e da modernização das outras. Não posso pensar em portos sem caminho-de-ferro, sem uma base rodoviária, sem uma boa gestão da articulação com aeroportos. No essencial, defendo que o grande desafio é trabalhar em conjunto e ter estratégias.

Qual o peso dos portos do Centro no contexto do desenvolvimento nacional?

Os portos da Centro nunca serão os portos principais de Portugal, mas pelo porto de Aveiro podem vir coisas inovadoras, que consolidam aquele que tem sido o caminho de maior desenvolvimento da zona norte da região Centro. Por outro lado, em torno da Figueira, há que potenciar um grande desafio mercê das articulações possíveis, quer com a Linha do Oeste, quer com a zona de Leiria e Pombal que tem ali uma função nevrálgica. Valorizando os recursos naturais associados à floresta, podemos ter um futuro melhor para o porto da Figueira e, sobretudo, nessa lógica de articulação com um grande corredor de desenvolvimento, onde Castela e Leão tem um peso decisivo na sua ligação a França.

E o futuro pode passar pela sua transformação em plataformas logísticas?

Pode. É tudo uma questão de gestão e de custos. Mas não podemos ter a ilusão de que os portos podem ter sucesso se não forem competitivos. Os portos são competitivos se forem centros de facilidades. Se ajudam quem quer importar ou exportar. Se ajudam quem se quer localizar mais próximo da operação final. Um porto integrado num mapa de operadores logísticos relevantes pode ser um porto muito valioso. A vantagem que temos em Aveiro e Figueira é a possibilidade de desenvolver os portos, de ter terrenos e de ter alguns investimentos que ajudam a respostas rápidas, nomeadamnete para as importações e exportações.

E as exportações continuam a ser a tábua de salvação para os empresários?

Para os portugueses. Nós somos 10/11 milhões com tendência para menos. Temos expetativas de europeus e, no contexto mundial, queremos viver bastante melhor que a esmagadora maioria da população. E a única forma que temos de satisfazer essas necessidades é produzir bastante, o que só acontece se produzirmos para o mercado mundial.

O que não acontece com Portugal…

O que não acontece com Portugal. Falamos muitas vezes na Suécia, na Suíça, na Finlândia e dizemos que os trabalhadores portugueses trabalham lá muito bem. Eles trabalham bem porque as empresas suíças, por exemplo, são empresas globais. A Suíça há muito tempo que percebeu que se fosse muito boa num número limitado de coisas – medicamentos, máquinas ferramentas, relógios, chocolates – seria um país de sucesso. E é tão boa nessas atividades que ganha o dinheiro suficiente para depois importar o que não produz.

Em que é que Portugal devia ser muito bom?

É mais o como do que o quê. É quase indiferente em quê, desde que seja diferente e faça muito bem. O grande coração para mim de afirmação de Portugal, do ponto de vista económico, é a diferenciação. As melhores empresas da região Centro já fazem isso. A Recer, por exemplo, é uma empresa que evoluiu muitíssimo e que tem hoje uma fortíssima capacidade de fazer produtos altamente inovadores. É por aí que Portugal tem que ir. É uma mistura de conhecimento, tecnologia e design, valorizando os recursos humanos e a nossa capacidade de resolver problemas.

E a pensar em que mercados?

Em todos aqueles que nos possam valorizar. Naqueles que já conhecemos, mas a pensar sempre numa coisa que é essencial: se vamos produzir diferenciado, se vamos produzir para incorporar valor, temos que vender para mercados de cima e não de baixo. Portanto, vamos ter que vender com maior valor um produto competitivo.

E que deve ser feito para atrair investimentos?

Quando um país se torna muito relevante em certas atividades atrai investimentos. Mas importa perguntar que investimentos atraiu Portugal. Nos anos 90 e antes, atraiu investimentos associados ao baixo custo da sua mão-de-obra. Depois atraiu alguns investimentos porque era um mercado interessante, particularmente Lisboa. Empresas estrangeiras que investiram em Portugal para abastecer o mercado interno. Depois, atraiu investimentos nalgumas daquelas indústrias que se situam numa fronteira difícil entre diferenciação e economia de escala como é o caso da indústria automóvel. Mas foram sempre empresas estrangeiras que viram em Portugal, recursos naturais, pessoas, mercados ou oportunidades.

Mas também é fundamental criar riqueza internamente. Como fazê-lo?

Vamos criar riqueza a produzir bens e serviços diferenciados, incorporando inovação, investigação, tecnologia. Se construirmos isto, teremos empresas portuguesas que precisam de empresas estrangeiras para parcerias. E empresas estrangeiras que percebem que têm muito a ganhar com essas parcerias. Se formos muito bons na produção, mas não prestarmos atenção à comercialização, podemos ficar sem o valor que estamos a criar. É muito importante chegar a mercados novos e já estamos a fazer isso nalguns casos.

Conhece bem o Centro. Que análise faz da sua realidade?

A região Centro tem uma caraterística interessante. Ela tem sido muito o norte do sul e o sul do norte, que têm sido mais dinâmicos e, talvez por isso, esteja hoje numa situação mais difícil. Eventualmente, só uma grande revolução em Coimbra, que dê realidade aquilo que está nos papéis enquanto cidade do conhecimento, possa alterar o estado de coisas. Se se puder transformar Coimbra numa grande cidade do conhecimento, o que é possível, passo a ter uma base exportadora de conhecimento e serviços.

Coimbra é um trunfo para a região?

Os grandes trunfos da região Centro são a possibilidade de ligar estas zonas mais dinâmicas com uma Coimbra que é, sem dúvida, um elo essencial, se conseguir dar a volta e esquecer as maldades que pensa que lhe fazem e que não passam, muitas vezes, dos próprios erros cometidos. A Universidade de Coimbra e o que ela representa no contexto nacional, ibérico e europeu é um trunfo. Mas a região tem que valorizar este dinamismo empresarial significativo no eixo de Aveiro para baixo e Leiria, Marinha Grande e Pombal para cima. Se percebermos que temos os portos e se percebermos que temos uma mancha florestal fundamental, que temos ainda alguns centros urbanos relevantes como Viseu, Castelo Branco. A diversidade da região Centro é o seu grande trunfo.

Há potencial?

Quando fazemos uma análise mais detalhada, é na região Centro que encontramos as atividades mais próximas deste caminho de diferenciação e em maior quantidade. A região Centro tem esta responsabilidade. Tem o potencial, tem as condições, mas precisa de massa crítica. O problema do Centro é não trabalhar como região.

A troika foi um mal necessário?

Infelizmente, todos nós preferíamos que não houvesse troika. Mas tudo caminhava para isso. Se tivesse tomado a iniciativa mais cedo, o programa era mais brando e tinham-se cometido menos loucuras. A vinda da troika significa, também entre outras coisas, que o nosso financiamento externo ficou limitado aos 78 mil milhões de euros mais o que for possível alcançar, com pequenas operações. Portanto isso vai limitar, necessariamente, o nosso crescimento.

O que temos que fazer?

Temos que, obviamente, cumprir o programa. Temos que aproveitar para acabar com a ineficiência no setor público e com as muitas atividades privadas que viviam à custa do Estado. O grande problema é que, por exemplo, no têxtil, vestuário e calçado, perdemos praticamente 100 mil empregos nos últimos cinco, seis anos. Na Administração Pública não perdemos emprego, houve reformas. Pode Portugal fazer a gestão desta austeridade, e relançar o crescimento sem rever esta relação entre o setor público e o privado?

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