“A implosão do Euro é uma ameaça apocalíptica”

Foto de Luís Carregã

Nasceu há 88 anos, em S. Pedro do Rio Seco, distrito da Guarda. Estudou na Coimbra dos anos 40, que lhe deu a conhecer a geração neorealista, foi para França onde viveu as discussões ideológicas do pós-guerra. Ao DIÁRIO AS BEIRAS, Eduardo Lourenço lembra um fascinante percurso de vida.

Esteve em Coimbra para o doutoramento honoris causa de Xanana Gusmão. Como é regressar à sua universidade?

Sou um pouco paradoxal nesse capítulo, sendo abstratamente muito desconfiado em relação a todas as projeções futuras. Estamos sempre implicados no presente: sempre pomos no presente mais de paixão, mais de fervor, mais de coisas positivas que nos confessamos a nós próprios. De maneira que eu vivi os meus tempos de Coimbra, enquanto estudante, naquela época em que frequentar a universidade ainda era um privilégio. Era um grande privilégio. E hoje – temos que felicitar-nos por isso – é uma espécie de futuro com que nós contamos.

É um dado adquirido?

Sabe, quando eu fiz os estudos secundários, fazer o 5.º ano era uma coisa extraordinária. Era ter a possibilidade de ter uma série de encontros, um certo número de possibilidades. Hoje a sociedade é muito mais igualitária, sobretudo no Ocidente, mas esse igualitarismo faz com que não se tenha aquele sentimento de que, quando se termina a licenciatura, se tenha ganho uma maratona. Hoje, a licenciatura não é algo que assegure um futuro a uma pessoa. Infelizmente é assim. Estamos a viver um período de uma grande perturbação nas possibilidades que se dão às novas gerações, que vem da dificuldade de encontrar uma saída para os estudos que fizeram, de ter um emprego que lhes assegure uma vida digna. Em todos os domínios estamos num período de crise. Mas provavelmente a crise, a grande crise, é a do nosso sistema de ensino.

Porque defende isso?

Repare: hoje os homens que correm os 100 metros mais rápidos não são milhares. São cinco, seis… e ali não há engano. O nosso ensino está baseado numa espécie de concorrência. Os rapazes do meu tempo não eram menos aptos, mas só alguns é que conseguiam impor-se. Tudo isso se alterou. Já no antigo regime muito mais gente acedia a níveis mais altos do ensino. Quando veio a revolução de abril, por razões de ordem económica e social, certas famílias conseguiram que os seus filhos fossem mais além. Tornou-se numa coisa quase obsessiva: o Estado quase tinha a obrigação de levar os filhos do povo português ao nível mais alto.

Há hoje um certo facilitismo?

Por bons motivos. Por motivos de democraticidade, de igualdade. Hoje estamos, pela primeira vez, confrontados com uma espécie de oferta universal e também de escolha universal das matérias. Antigamente, o esquema na Europa era um pouco este: quem fizesse estudos gostaria de chegar a um nível que lhe permitisse ser professor primário. Foi uma coisa básica criada no século XIX: lemos os romances do Júlio Dinis e os heróis são professores primários, aquele que casa com a morgadinha. Agora, o que acontece é que, aparentemente, todos os caminhos estão abertos, desde que a pessoa tenha capacidade para isso. Mas, depois, uma parte desses caminhos não proporciona as saídas que as pessoas imaginam.

Quando estudou em Coimbra conheceu Miguel Torga…

Conheci o poeta Miguel Torga quando já era assistente na Faculdade de Letras, mas já o conhecia antes, naturalmente de nome, porque era um verdadeiro mito vivo. Quando ele publicou “Os Bichos” passou a ser uma pessoa conhecida no país inteiro. Depois tive a sorte de o conhecer e de falar com ele enquanto fui, durante seis anos, assistente em Coimbra. Ele tinha um estatuto literário e cultural que eu não tinha e era de uma geração mais velha, tinha mais 15 anos do que eu. Mas conheci-o muito bem durante esse período e foi um dos conhecimentos importantes para a minha vida, sem dúvida. Conheci-o bem até 1953, quando fui lá para fora. E devo-lhe muitos incentivos e, sobretudo, a atenção que ele me consagrou na altura.

Porque é que foi lá para fora?

Porque fiz os meus seis anos de assistente na faculdade, deveria ter feito a minha tese de doutoramento naquela altura e não fiz…

Não fez porquê?

Porque em vez de estar a trabalhar e a fazer a tese, andava por aí nos cafés a palrar com este e com aquele, nas tertúlias do Miguel Torga, do Paulo Quintela… Gente mais velha do que eu, curiosamente. E depois nas tertúlias da gente da geração neorealista. Esses é que eram os meus companheiros de geração, do ponto de vista cultural e literário.

Costuma dizer que, mesmo estando lá fora, nunca deixou de acompanhar Portugal…

De lá é que comecei a acompanhar mais. Veja que a minha geração fez os estudos de liceu nos anos 30 e esses foram anos muito singulares. Vivíamos depois da I Guerra Mundial, em que as democracias ocidentais sofreram uma grande crise que nunca acabou e que continua até hoje. Naquela altura, estávamos na véspera de qualquer coisa que também não podíamos adivinhar exatamente o que seria. E isso foi, pura e simplesmente, a II Guerra Mundial. Na verdade, esses anos 30 foram uns anos em que a sociedade europeia tinha o sentido de estar na véspera de uma segunda guerra mortal que veio a realizar-se. Portanto, por razões de ordem interna – quer pelo regime que entretanto tinha triunfado em Portugal a partir de 1933, quer por aquilo que estava a acontecer na Europa, – toda a nossa geração, quisesse ou não quisesse, era muito politizada. Tinha de ser politizada porque o mundo ia exigir escolhas às pessoas. Uma parte da nossa geração escolheu: não aceitava o regime que entretanto se tinha instalado no país. E havia uma minoria estudantil – e particularmente em Coimbra – que tinha um grande interesse, uma espécie de crença de que aquilo que a união soviética representava era o futuro da Europa e o futuro da humanidade, que ali é que estava a solução. E, embora isso não se pudesse dizer expressamente, a nova geração partilhou essa coisa: uns pensavam que, de facto, era uma revolução diferente. As pessoas que contavam na produção cultural tinham ideia de que não podiam alhear-se daquilo que estava a ser jogado na história naquele momento. Chama-se a essa geração neorealista. Eu pertenço a essa geração, embora não partilhasse todas as teorias, crenças, essas esperanças que os meus camaradas partilhavam. Mas partilhava dessa ideia de que o mundo precisava efetivamente de ser mais justo, de superar um certo número de obstáculos e de coisas que eram insuportáveis. Havia uma espécie de guerra permanente que se fazia.

Como era a censura?

A nível oficial é que havia uma censura muito vigilante sobre um tipo de literatura que eles achavam que era uma literatura muito subversiva, contrária aos valores que o Estado Novo promovia e que tinha os seus mensageiros no ensino. Pertencíamos a uma sociedade que tinha que escolher e foi assim até ao fim do regime.

Antes da revolução…

Antes da revolução… A nossa maneira de lidarmos com o tempo é sempre uma maneira muito estranha. Hoje dizemos que foi antes da revolução. Mas, naquela altura não sabíamos que era antes da revolução.

Hoje sabemos…

Nós aprendemos é de diante para trás e não de trás para diante. De trás estamos numa espécie de nevoeiro, sabendo umas coisas, lendo na luz de outras. Penso que ninguém imaginou uma mudança daquele tipo e isso é característico da nossa relação com os acontecimentos: este ou outro; aqui ou noutra parte do mundo. De resto, talvez seja mesmo a coisa mais interessante que existe. Angustiante e interessante, que dá sabor às coisas: é que são imprevistas. Nós concebemos, fazemos projetos, sonhamos – nós somos um animal que sonha, um animal que prevê, um animal que projeta. E depois as coisas acontecem mais ou menos segundo o nosso pequeno sonho. Mas para a maioria dos humanos, para nós todos, num momento ou noutro, sempre nos enganamos.

Enganou-se muito?

Constantemente. Mas também só temos consciência dos enganos depois de os ter feito.

Como as revoluções?

(ri-se) Como as revoluções…A idade é que nos ensina.

Voltemos um pouco atrás: porque diz que via melhor Portugal quando foi viver para França?

Porque o via de outro sítio. Imagine, uma pessoa sai aqui de Coimbra nos finais dos anos 40 – a menina não sabe o que é, porque não esteve lá, mas eu sei (sorri). Sai-se de um país, em 1949, onde simples opiniões, críticas sobre a sociedade, eram logo rotuladas de comunistas ou de subversivas e podiam ter consequências graves. Não tanto através de opiniões. O que mais acontecia é que, se eu quisesse publicar um livro – que não era a censura que detetava porque os sujeitos eram meios cegos – havia órgãos fiéis e que estavam muito mais a par da filosofia do regime do que o próprio regime. Era gente que tinha estudos, padres, jornais e, se eles diziam que um livro tinha ideias perigosas, então a censura ia lá ver e proibia. Ora, em 1949, quatro anos depois do fim da guerra, um sujeito vai lá para fora, para uma bela cidade francesa chamada Bordéus , sai à rua e a primeira coisa que vê é uma faixa onde se lê: Partido Comunista Francês. Isto é um outro mundo. O partido não só era legal, como tinha muita influência naquela altura porque os louros da famosa resistência francesa pertenceram ao partido comunista.

Era um mundo novo…

Sim. A França era o país da liberdade. Nos jornais discutiam-se coisas que aqui não se podiam discutir. Era um mundo completamente diferente deste que se vivia aqui. E eu aí tive um segundo nascimento cultural. Nessa altura fui, pouco a pouco, adquirindo uma informação que era um pouco diferente da que os que estavam aperreados aqui no país adquiriam. Qualquer coisa que eles publicassem era proibido. De modo que, estar em França era uma forma diferente de ler, de adivinhar o que aqui se estava a passar. Era mais fácil fazê-lo de lá de fora do que cá dentro. O problema é que eu penso que, se tivesse havido muita gente que não se desse por achado quando havia essa prática da censura exacerbada e inaceitável, se as pessoas fizessem tentativas de mandarem e mandarem textos, eles acabariam por publicar alguma coisa. Mas como nós fazíamos autocensura, então isso facilitou-lhes muito o trabalho.

Somos um povo brando?

Brando.

Ainda hoje?

Neste país conhecem-se todos uns aos outros. Não podem estar de mal com o Governo (ri).

Da última vez que esteve em Portugal disse que não tinha sentido “uma atmosfera crítica”, o que atribuiu ao facto de o governo ainda gozar “dos 100 dias de benefício da dúvida”. Esses 100 dias já passaram…

Confesso que nestes 100 dias, o que me tem preocupado – e o que preocupa este governo e a oposição naturalmente –, é qualquer coisa que ultrapassa o simples fenómeno político. Estamos confrontados com um desafio que é um desafio ao país inteiro. E este Governo tem agora que dar uma resposta, uma vez que ele quis chegar ao poder para emendar, pelos menos em parte, aquilo que ele pensa que foram os erros do antigo. Mas erros ou não, não pode agora estar a passar o tempo a fazê-lo quando existe uma urgência maior de saber quando é que saímos disto. De resto, o governo atual não rejeita o compromisso com a “troika” e cabe-lhe a ele dar a resposta efetiva às exigências impostas nesse documento. E não só às exigências, mas ao facto de tudo o que se passa, ao facto da situação já não ser a mesma e de estar todos os dias a alterar-se.

Mesmo assim, continua a dar-se o benefício da dúvida …

Não há, neste momento, uma crítica muito violenta – e até moderada – daquilo que se está a passar. As pessoas, até ver, dão o benefício da dúvida. Por outro lado, é verdade que alguns índices mostram duas coisas: primeiro, dessas medidas que foram tomadas, não se conhecem verdadeiramente todos os efeitos que elas vão produzir. Só nos próximos seis meses é que o povo português vai medir concretamente no seu estilo de vida aquilo que implicam as medidas que foram tomadas, porque parte dessas medidas são um pouco abstratas para a população. Outra coisa é que o processo está todos os dias a mudar.

Está a referir-se às ameaças que vêm da conjuntura internacional e, particularmente, da Grécia?

No dia em que a Grécia não estiver em condições de pagar aquelas dívidas extraordinárias, não será só a Grécia que vai ser punida ou que sofrerá as consequências. Poderá acontecer o tal efeito dominó e nós estamos na primeira linha daqueles a tombar, mas não piores que os outros. Neste momento até parece que Portugal está a cumprir. Tanto melhor. Agora, isso não está na mão de ninguém, nem daqueles que estão com a mão nisso: ou seja, o Governo ou a própria oposição. É uma coisa que nos ultrapassa, estamos numa conjuntura em que as simples capacidades nacionais têm de se medir com obstáculos e com ameaças que são de uma índole que, raras vezes, se produz numa conjuntura histórica.

Receia o fim do Euro?

A grande ameaça é que, se a Grécia salta, haja um efeito dominó… Portugal salta, a Espanha, a Itália, depois seria o Euro que explodiria. E a implosão do Euro é uma ameaça de tal modo apocalíptica, embora para alguns considerada como uma salvação. Eu não partilho dessa opinião, ninguém sabe o que isso é, e não é que eu tenha elementos para dizer que será uma coisa ou outra. Mas eu sou um europeu fervoroso – um pouco desiludido neste momento –, mas não vejo alternativa para isso. Senão voltaremos à Europa do século XIX, outra vez nos nacionalismos, cada um por si. Ora, uma das coisas que mais censuramos no comportamento das pessoas responsáveis pelo destino dessa Europa que está em construção, é de que não houve uma ideia, um projeto com força na afirmação da Europa. Esperemos que a Grécia se aguente.

Que projetos tem? Ainda é um animal que sonha, como disse há pouco?

Sim. Todos nós não podemos fazer outra coisa. Sabe, há muito tempo, fez-se uma experiência com uns ratos. Descobriu-se que os ratos sonham, que o sono tem alternâncias diferentes. Mas o mais interessante é que, se se impede essa função onírica, eles morrem. Para a humanidade é a mesma coisa: deixar de sonhar é como deixar de respirar. Algo deixa de respirar.

Ainda sonha, então?

Naturalmente. Sempre sonho.

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