Vidas difíceis

Aires Antunes Diniz

Poucos conhecem a longa e penosa vida dos professores que deambulam pelo país, mas esta é cada vez mais frequente depois de José Sócrates ter decidido há uns anos que esta mudança de escola contínua ia acabar, fixando os professores. Pura conversa fiada.

Alguns alegraram-se com isso, fiados que estavam em palavras “tão corajosas”, pensando que a sua triste vadiação ia acabar. Nem sequer queriam lembrar situações felizes de gente solidária e amiga como aquela que “A essa hora despedia-se da companhia de um amigo novo (todos se retiravam amigos) que, vindo dos campos chatos do termo de Coimbra, doente de mil preocupações nascidas da vida mesquinha que fazia”. 1

Antes fora um tempo pleno de juventude, em que percorrer montes e vales era uma vida feliz, que terminaria quando efectivassem numa Escola, sita numa vila ou cidade, onde investiriam o dinheiro poupado ou a poupar, estabilizando a vida, onde iriam preparando com tempo e cuidado as suas lições para serem professores estimados pela sua competência e dedicação à Escola.

José Sócrates mai-la sua Ministra MLR, o Secretário de Estado VL pensavam que esta tarefa era muito fácil. Entretanto, foram verificando que mais do que estabilizar a vida dos professores, havia que os avaliar para acabar com as suas progressões na carreira. Era preciso arranjar dinheiro para tapar os deficits que a má gestão bancária associada à má regulação feita pelo Banco de Portugal tinha criado. Antes tinham começado por dizer que as reformas que os professores tinham ganho ao longo das suas vidas difíceis não podiam continuar. Era necessário baixá-las. E para o fazer era só preciso ter coragem. Gritava ele e mais os bobos e jograis da côrte.

Esquecia que tudo obedecia a regras desde há muito ditas e reditas nos livros de pedagogia. E muitos começaram a duvidar do saber dos pedagogos que “ensinavam” nas Universidades e Politécnicos. Alguns, poucos, começaram a falar do seu blá-blá e escreveram sobre isso, criando a palavra eduquês para designar tanto um falso saber como uma ausência de coragem para desdizer o ignaro corajoso que foi estudar filosofia para Paris.

Antes de partir, deixou tudo armadilhado e quem o substituiu não foi capaz de encontrar caminhos menos pedregosos. Só teve como solução fácil afastar mais professores dos caminhos do ABC. De facto, tendo apenas aprendido um linguajar crítico da pedagogia, pressionado pelos senhores que medem tudo pelo que se gasta, manteve-se numa deriva que fez desaparecer horários de trabalho, tornando a vida dos professores mais difícil. E estes, deste inferno, só sairão quando discutirem o desatino de quem destrói a educação para perpetuar a incompetente ignorância dos que se julgam donos do mundo.

1 – Antero de Figueiredo – Senhora do Amparo – Dois perfis: um Curandeiro de obsessos; Um cura de almas, Livrarias Aillaud e Bertrand, Paris e Lisboa, 1920, p. 190.

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