Tentações

Aires Antunes Diniz

Desde há uns meses o mundo tem seguido com mais ou menos atenção o drama de Dominique Strauss-Kahn. Todos fomos sentindo que tinha caído numa esparrela e que isso lhe tinha causado prejuízos incalculáveis. Muitos foram dando como provadas todas as acusações. Nem se estranhava o facto de uma criada de hotel entrar num quarto enquanto o hóspede toma banho. Entretanto, muitos foram considerando que tudo tinha ultrapassado a mera lógica de um galanteio sem consequências, como tantas vezes acontece, fazendo parte do lado romântico da vida. Por isso, agora, vemos que DSK caiu numa armadilha, pois como Sacadura Botte conta como ocorrido “nos arredores de Coimbra”, … quando uma “rapariga passou e continuou o seu caminho, mas o Manuel Esteves ficou parado, a segui-la com o olhar, embevecido naquela figura de Vénus rústica. Ela, tendo caminhado alguns metros, voltou-se e olhando-o com sorriso, misto de malícia e petulância, disse-lhe: – Ó meu senhor! Tenha paciência, mas não pode ser! E tendo assim feito, misericordiosamente, esta categórica afirmação, tranquila prosseguiu o seu caminho!…”1

Embora não se conseguisse provar que fosse uma relação não consentida, os prejuízos políticos para DSK são enormes e, nós, portugueses, sentimos que esta história nos afectou pois o homem em causa tinha uma visão mais à esquerda da gestão da Economia Mundial. Entretanto, muitos emails surgiram aventando conspirações e histórias sobre uma crise da finança global para explicar esta situação estranha. Também logo gente há muito calada aproveitou para o acusar de “crimes”.

Contudo, nas ruas ouvimos gente que comenta o sucedido, mas poucos sublinham a rapidez com que se resolveu o caso, nem os aspectos e procedimentos judiciais de que tomámos conhecimento. Ninguém compara com os casos lusos tipo sucateiro Manuel Godinho, onde a lentidão do processo nos anestesia.

Entretanto, no jogo político mundial, o poder nesta organização mudou de sinal e a crise continuou, ganhando novas tonalidades, todas elas mais carregadas de perigos, dando sinais de agravamento, mostrando como a economia mundial se aproxima perigosamente do colapso. E esse passo é acelerado pela política desastrosa dos senhores do mundo tal como o vemos reconhecido pelos jornais de economia mais atentos. Mas, para todos nós, esta situação é pouco clara quando vimos o seu estranho e tardio empenhamento na invasão da Líbia para libertar “mais um povo de um ditador sanguinário”, mas talvez só haja mais petróleo para jorrar, fazendo duvidar das boas intenções dos libertadores pois até os mercados se alegram com esta “boa acção”.

Tudo nos impede de cair na “tentação” de pensar que os vencedores têm sempre razão!

1 Theodorico Sacadura Botte – Memórias e Autobiografia,, Maputo 1985-1986, vol. 1, p. 127.

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