Salamanca, de novo

João Boavida

Volto de novo a Salamanca, onde vivi algum tempo por diversas vezes. Já cá não vinha há uns tempos largos, mas tudo, no casco da cidade, parece eterno: prédios, pessoas, lojas, pináculos de catedral, campanários, ninhos de cegonha. No meio da constante agitação barulhenta, colorida e alegre o eterno transforma-se constantemente porque a beleza intemporal dos lugares vive e anima-se a toda a hora com pessoas, vozes, movimentos. Todos sabem, Salamanca é uma cidade encantadora, que parece ter sido feita, ao longo dos séculos, para a podermos agora apreciar. Ou seja, andar nas suas ruas, olhar as suas pedras, entrar nos seus palácios austeros e escurecidos, deambular por entre as pessoas naquela agitação barulhenta e alegre que só as cidades espanholas têm. Aquela Plaza Mayor é de facto o centro do Mundo para os salamantinos. E para os que vêm de fora. E que valor imenso isso tem para os cidadãos. Conviver uns com os outros, usufruir a vida, todos os dias conversar um pouco, ver e ser visto, espairecer, mas sempre enquadrado pela beleza e a harmonia daquela praça notável. E depois sair (ou entrar) por cada uma daquelas portas da Praça percorrendo ruas e encontrar outras praças que com ela se harmonizam. E ver que as casas abrem varandas e janelas e os mercados compram e vendem e as tabernas bebem, comem e discutem e os cafés fervilham de agitação ruidosa. Que arte estes espanhóis têm de fazer cidades com vida. E de usufruir os momentos, não só porque respeitam e recuperam os lugares e os monumentos, mas porque vivem e respeitam a sua cultura. De que não se envergonham, que afirmam e cultivam numa transversalidade admirável. Nas Festas da Cidade, por várias vezes, ao som do tamborileiro (um homem com pífaro e tambor que anda pelas ruas tocando músicas tradicionais) vi pessoas de todas as condições – desde moças a senhoras de idade e porte, de camponeses endomingados a comerciantes – formarem espontaneamente grupos e dançarem em conjunto, ao som do tamborileiro. E mui acertada e alegremente, o que é que julgam?

Tão longe de nós e tão perto, os espanhóis; tão diferentes e tão semelhantes. Em Espanha penso sempre no lado de nós que não chegámos a ser. Do mesmo modo que eles pensam em nós como o lado de cá que não chegaram a ter (nem a ser também). Não sou iberista, a nossa cultura é suficientemente rica. E é a nossa. Respeito a memória dos muitos milhares que ao longo das nossas fronteiras sacrificaram vidas para manter independente a nossa terra, durante séculos. Mas isto não me impede de amar as paisagens espanholas e sobretudo as suas cidades barrentas e densas, as suas catedrais pesadas, as suas ruas duras e fluidas. Somos diferentes, mas há uma espécie de nostalgia mútua e cruzada que nos aproxima e afasta, nos identifica e distingue.

E no meio disto tudo houve uma bela surpresa. No “Pateo de la Universidad”, onde, todos os dias, passam muitos milhares de turistas e ficam especados frente ao grande portal de estilo plataresco à procura de «la rana», uma empresa de Coimbra. A Artescan, do Instituto Pedro Nunes, com dois engenheiros no alto duma grua tirando dados para uma reprodução em 3D de todo o rendilhado da pedra. O facto é tão importante que há reportagens na televisão e os diários do dia seguinte (“La Gazeta” e “El Adelanto”) fazem fotografias de 1ª página e grandes reportagens sobre esta «tecnología puntera a nivel mundial», que lhes irá possibilitar uma recuperação perfeita daquela preciosidade arquitectónica. É bom ver como há empresas de Coimbra que estão dando cartas lá por fora.

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