Por um mundo melhor

Aires Antunes Diniz

Enquanto os “rebeldes líbios” libertavam Tripoli, comandados e/ou apoiados por Obama, Sarkozi e Merkel e Companhia e os ladrões aproveitam para pilhar o que ficava desamparado, Fernando Castro morria a trabalhar por um mundo melhor na Guiné-Bissau. Vivemos de facto um mundo contraditório, onde se cruzam boas vontades e hipocrisias criminosas, e o Fernando sabia-o bem.

Entretanto, sem saber da sua morte, lia num livro de Américo de Castro, que retratava o pós 5 de Outubro de 1910, escrevendo que: “Faz tristeza ver essa mocidade de peralvilhos, deformados, do corpo e do espírito, passear a sua importante mediocridade pelas ruas de Coimbra. A academia estouvada e irreverente, cheia de abnegação e de altruísmo, morreu. Sobre as suas ruínas passa uma fraudulagem sem ideias nem aspirações! Mas, o Fernando sabia encontrar entre os alunos da Brotero os que podiam coadjuvar na Promundo. Conseguia-o porque ia a todas as turmas explicar o que queria, mostrando lucidamente como funcionava o Mundo e onde é difícil ser solidário pois sem muitos os oportunistas, Explicava. Sabia também em que condições difíceis os colegas davam aulas a turmas onde falta um mínimo de educação. Mas, era assim que ia juntando alunos solidários, que se juntavam a ele, tornando-se seus amigos para toda a vida. Foi o que pude ver quando coordenei o Jornal da Brotero n.º 4, cujo tema central foi a Promundo, a organização solidária que inspirou.

Conhecedor perfeito das condições difíceis em que os professores trabalharam nos últimos 6 anos, vi-o sempre solidário com os seus colegas. Por isso, escrevi no Facebook, numa páginada Brotero: “Sempre tive da parte do Fernando a compreensão clara do que estava em jogo na luta sindical pela dignidade dos professores e da Escola. Dele e com ele sempre senti a solidariedade perante as desigualdades e injustiças do Mundo. Sentirei sempre a sua falta.”

Encontrava-o muitas vezes ao fim da tarde reunido com alunos a programar o trabalho da Promundo e via-o muitas vezes a trabalhar sozinho para que tudo corresse bem. Captava muitas boas vontades e apoios e por isso conseguia atingir os seus objectivos solidários. Para isso, descuidava a saúde e o mesmo fizemos todos os que vivemos intensamente estes anos difíceis de uma governação sem tino nem saber, acolitada por gente extremadamente servil e oportunista. Por isso, há pouco desapareceu a Nana, que vi a trabalhar na véspera da morte e algum tempo antes, o Paulo Ramos, que, no meio das suas contradições e incoerências, já desenganado dos médicos, conseguia ser um amigo firme.

E, com estes desaparecimentos, a Brotero ficou com um vazio que bem tarde preencherá.

(1) Américo de Castro – Últimos anos da Monarquia (Memórias), Livraria Fernandes, Porto, 1918, p. 110.

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