Excertos de um discurso

Júlio Marques Mota

Durante várias décadas criaram-se as condições nas quais a indústria ficou sujeita à lógica da rentabilidade financeira de curto prazo.

Esconderam-se os riscos sempre crescentes que se passou a ser obrigado a assumir para obter rendimentos cada vez mais exorbitantes.

Instauraram-se sistemas de remuneração que levavam os operadores a assumir riscos cada vez maiores e de montantes quase que sem limite.

Fingiu-se acreditar que mutualizando os riscos que os fazíamos desaparecer.

Deixou-se os bancos especular nos mercados em vez fazer o que é a sua profissão, ou seja, que é a de mobilizar a poupança em proveito do desenvolvimento económico e de analisarem o risco do crédito.

Financiou-se o especulador em vez de se financiar o empresário. Deixaram-se sem nenhum controlo as agências de notação e os fundos especulativos. Obrigaram-se as empresas, os bancos, as companhias de seguros a inscrever os seus activos nas suas contas aos preços do mercado que sobem e descem à vontade da especulação.

Obrigaram-se os bancos a regras contabilísticas que não fornecem nenhuma garantia sobre a boa gestão dos riscos mas que, em caso de crise, contribuem para agravar a situação em vez de amortecer o choque.

Era uma loucura cujo preço estamos agora a pagar!

Este sistema onde todo aquele que é responsável por um desastre pode-se ir embora com um pára-quedas dourado, [como aconteceu em quase todos os bancos falidos] onde um trader pode fazer perder vários milhares de milhões de Euro ao seu banco sem que ninguém se aperceba, onde se exige às empresas que tenham rendimentos três ou quatro vezes elevados que o crescimento da economia real, este sistema aumentou fortemente as desigualdades, desmoralizou as classes médias e alimentou a especulação nos mercados do imobiliário, das matérias primas e dos produtos agrícolas.

A economia de mercado é o mercado controlado, é o mercado posto ao serviço do desenvolvimento, ao serviço da sociedade, ao serviço de todos. Não é a lei da selva, não são os lucros exorbitantes para alguns e os sacrifícios para todos os outros. A economia de mercado é a concorrência que reduz os preços, que elimina as rendas [de exploração] e que assim beneficia todos os consumidores.

O capitalismo não é o curto prazo, é o tempo longo, é a acumulação do capital, é o crescimento a longo prazo.

O capitalismo não é a primazia dada ao especulador. É a primazia dada ao empresário, é a recompensa garantida ao trabalho, ao esforço, à iniciativa.

O capitalismo não é a diluição da propriedade, a irresponsabilidade generalizada. O capitalismo é a propriedade privada, a responsabilidade individual, o compromisso pessoal, é uma ética, uma moral, são as suas instituições. O capitalismo é modelo que permitiu o desenvolvimento extraordinário da civilização ocidental desde há sete séculos.

A crise financeira não é a crise do capitalismo. É a crise de um sistema que se afastou dos valores mais fundamentais do capitalismo, que traiu o espírito do capitalismo. (…)

Nestas circunstâncias excepcionais onde a necessidade de agir se impõe a todos, apelo à Europa para reflectir sobre a sua capacidade de fazer face à urgência, de reconsiderar as suas regras, os seus princípios, que tire as lições do que se passa no mundo. Deve oferecer-se os meios de agir quando a situação o exige e não condenar-se em ficar a sofrer.

Se a Europa quer preservar os seus interesses.

Se quer ter a sua palavra a dizer na reorganização da economia mundial.

Se quer dar-se os meios para sair reforçada e não enfraquecida da crise actual, deve então empenhar-se numa reflexão colectiva sobre a sua política de concorrência que não é, aos meus olhos, senão um meio e nunca um fim em si-mesma, sobre a sua capacidade de mobilizar os recursos para preparar o futuro, sobre os instrumentos da sua política económica, sobre os objectivos atribuídos à sua política monetária. Sei que é difícil porque a Europa são 27 países, mas quando o mundo se altera, a Europa deve alterar-se também. Deve ser capaz de largar os seus próprios dogmas. Não pode considerar-se condenada a ser a variável de ajustamento de todas as outras políticas no mundo porque não se seria dada a si-mesma os meios para agir. O que se passou nos Estados Unidos se tivesse passado na Europa, com que rapidez, com que força, com que determinação a Europa teria ela enfrentado a crise? Para todos os Europeus é bem claro que a melhor resposta à crise deveria ser europeia.

 

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