A vulgaridade da palavra milhões

Mário Nunes

A humanidade entrou num ciclo financeiro, económico e social tão vulgar, que os números com muitos algarismos capricham por se tornarem uma banalidade e a sua simples enumeração confere-lhes apenas relativo impacto e até natural vulgaridade. Enquanto, há uma/duas décadas falar de milhões impunha respeito e quase “sufocava” a pessoa ao ouvir a palavra dado o poder e a força que impressionavam, actualmente e devido à frequência com que a cifra é divulgada, o extenso número de algarismos árabes quase não causa surpresa. As pessoas habituaram-se, sobretudo pela comunicação social e pelas “conversas” dos políticos e economistas, a receber sem pestanejar a palavra milhões. Sabemos que a desvalorização da moeda e a crise económica, social e, também, política, originaram a diluição progressiva da quantidade de algarismos necessários para obter um milhão, mas deve entender-se que foi a globalização e o conceito do valor numérico postos a circular em doses contínuas que esvaziaram a importância e a surpresa que o número reflectia. Aceita-se, hoje, com manifesta naturalidade e até indiferença, a quantidade milionária, dado o comum das saturantes intervenções, “frias”, de alusão aos milhões, pelos responsáveis governamentais e teóricos da matéria.

Há relativamente poucos anos, como referimos, causava calafrio e até aturada reflexão, espanto e mesmo incredulidade, ler e ou ouvir que a população mundial era de tantos e tantos milhões de milhões ou biliões e que volvidas algumas décadas atingiria números incríveis e a Terra não resistiria. Hoje, a enumeração desses milhares de milhões fica aquém do efeito pretendido, porque o mundo vive na era da quantidade. Por exemplo, se uma guerra ou calamidade atingia milhares de pessoas, tal catástrofe arrepiava e emocionava o mais insensível pelos danos e mortos que causava. Nos nossos dias, milhões de seres morrem de fome, em guerras intermináveis e sucumbem às doenças mais esquisitas, mas a impressão causada é residual. Os meios de comunicação social divulgam-nos com tanta regularidade que são o pão nosso de cada dia. Por outro lado, os países ricos e poderosos, aproveitam-se desses acontecimentos, que muitas vezes fomentam, para fazer publicidade de bonzinhos, enviando milhões em auxílio alimentar (quantas vezes passados meses de inação e com produtos quase ou fora do prazo de validade), com medicamentos, tendas e até armas, escondendo, que esse tipo de acções “caridosas”, na maioria, servem para sustentar e ou angariar poder, supremacia sobre povos e países, manter posições estratégicas. Neste plano agendado, previamente programado em reuniões intermináveis de diplomatas e políticos, os milhões de carenciados justificam que se intervenha para buscar milhões em contrapartidas. Os milhões passaram a ser palavra rotineira no vocabulário dos cidadãos.

Outros exemplos frisantes encontramos quando lemos e ouvimos que fulano “desviou”, indevidamente, milhões ou que a derrapagem da obra pública foi de milhões e ou que os lucros de bancos ou empresas foram de milhões. Nestes casos e semelhantes os milhões são uma normalidade e o impacto é relativo. Sem milhões é que causaria estranheza. Os milhões dissolvem-se pois na secura e banalização da palavra.

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