A receita

Francisco Queirós

Afinal, existe. De fácil execução, mesmo ao gosto de principiante nas artes culinárias, e de rápida preparação. A receita começou a ser divulgada por toda a Europa. Serve aos mais necessitados, os pobres do Sul, serve também aos mais cautelosos, os ricos do Norte, e servirá às mil maravilhas para os ricos do Sul. Se não servir para os pobres do Norte, paciência.

Há receita e basta! Vejamos então. Primeiro, os ingredientes tradicionais: baixa de salários, eliminação ou cortes nos subsídios sociais, aumento de impostos sobre o trabalho e sobre o consumo, redução da despesa pública, menos gastos na saúde (menos públicos, mais teus), no ensino, na cultura, etc, (este tempero dá sempre um gostinho diferente, é bom para o paladar e a maioria nem percebe o mal que faz, e quando percebe já fez a digestão). Mexe-se tudo bem mexido e está preparada a base do prato. Até aqui a receita é extremamente simples e acessível a qualquer cozinheiro tecla 3. A verdadeira novidade está na adição de um tempero especial. Uma espécie de segredo que depois de revelado já não o é. E daí quem sabe, o segredo de Fátima tardou a ser revelado e quando o foi – foi, não foi? – não deixou de ser o “segredo”. Qual é então o segredo?, perguntam os que ainda resistem. O segredo não é para todos. É para eleitos. O truque do chefe está na tributação especial dos ricos. Pronto, já disse, ou melhor, já escrevi e não há volta a dar. O segredo para a receita ser excepcional, mantendo-se rápida na execução e de muito fácil preparação consiste no truque de uma muito excepcional esmola suplementar. Tome nota: acrescenta-se, à base já preparada, uma dose moderada (muito moderada) de imposto excepcional (muito excepcional) e reversível (sempre reversível) sobre alguns (cuidado!) rendimentos dos mais ricos. Coisa pouca! Os excessos são sempre a morte do artista, mesmo, ou sobretudo, em culinária. Deve-se misturar alguns poucos gramas deste produto milagroso aos quilos e quilos da base já preparada. O verdadeiro segredo nem consiste no produto em si, mas no seu aroma, pelo que tem de ser espalhado aos sete ventos, agitado à exaustão nas tvs e rádios e se for mesmo possível não o usar de facto e apenas mostrá-lo tanto melhor.

Por fim, dê-se um nome ao prato, ou mais que um, conforme as regiões e as culturas, que a riqueza do prato consiste também na sua universalidade. Chame-se-lhe “Caridade”, sem incorrer em diminutivos que podem parecer irónicos. Chame-se-lhe “Solidariedade Social”, talvez. Para públicos mais desconfiados e requintados este nome é mais vendável. Chame-se-lhe o que se quiser, neste paleta de opções, mas sobretudo chame-se-lhe muito e muitas vezes. Verá depois, caro leitor, que servido o prato bem quentinho, mesmo muito requentado, o mesmo apaziguará muitos estômagos. E, seja ousado, atrevido, talvez provocador ou mesmo um sem-vergonha e coloque sobre o prato – os olhos também comem – um pequenino cartão escrito pelo seu punho na melhor caligrafia a letra gótica com o dizer de Garrett: “Quantos pobres são precisos para se fazer um rico?” E assine: “Os Ricos, reconhecidos!”

2 Comments

  1. Um texto de mestre.Ograndes ricalhaços sempre gostaram disto, da caridadezinha.Apoiem-nos. Um forte abraço pelo magnifico texto.Fácil,simples de entender.

  2. Maria Pinto says:

    Segundo o corte do Ministro das Finanças anunciado em forma de receita, os portugueses interessados em ir á Festa do Avante este ano, não vão poder ir porque não tem dinheiro, a não ser que a entrada seja gratuita. Já que o PCP defende os mais necessitados? Também gostava de ver o Secretário Geral do PCP Jeronimo de Sousa a trabalhar ao lado de muitos homens e mulheres que ajudam na construção de mais uma Festa do Avante?

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