“Nada me prende a Coimbra a não ser a minha paixão pela cidade”

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Foto Gonçalo Manuel Martins

Estão na rua os XV Encontros Mágicos de Coimbra. E 15 anos é muito tempo?

É. Muito tempo. 15 anos é o tempo suficiente para acharmos que estamos a começar, que a ideia dos Encontros não é uma ideia de verão. E é o tempo suficiente para ter a certeza que as pessoas perceberam o verdadeiro espírito dos Encontros Mágicos. Todos nós abrimos os jornais ou vemos a televisão e existem imensas iniciativas que se anunciam como a primeira mostra de qualquer coisa, o segundo encontro nacional de outra coisa qualquer. Quando passamos para os dois dígitos e o segundo é um cinco, começa-se a perceber que, em 15 anos, uma pessoa faz-se adulto, a sua ação passa a fazer-se sentir, ocupa espaço. E foi o que aconteceu com os Encontros Mágicos.

Encontros Mágicos que nasceram…

… de um sonho do José Carlos Gomes – Hortiny –, que realiza o I Festival Internacional de Magia em Coimbra, a 4 de Julho de 1992, com uma gala no [Teatro] Gil Vicente onde eu fui artista convidado. Depois houve um interregno, com o falecimento prematuro do Hortiny, que era uma pessoa muito próxima, com quem aprendi muito. Em 1998, eu senti a necessidade de, neste espaço que eu escolhi para minha casa – porque eu não nasci em Coimbra, nasci em Moçambique, mas vim para Coimbra com 15 anos e daqui não saí mais por opção, apenas por opção e nada mais. De facto, nada me prende a Coimbra a não ser a minha paixão pela cidade –, dar forma a alguma coisa ligada à magia. Escrevi uma carta ao dr. Manuel Machado, na altura presidente da câmara municipal, e fiz a proposta para um festival diferente, não renunciado à inspiração original de alguém como Hortiny.

E nasceu um festival diferente?

Foi então que surgiu aquele que foi o único festival no mundo exclusivamente vocacionado para o público em geral.

O primeiro a sair dos salões da magia?

Exatamente. Este foi sempre um festival destinado ao público e não aos profissionais. E teve também, desde o início, uma grande interação com o espaço arquitetónico envolvente, que é altamente convidativo. Estando nós a falar de uma arte tão transversal, tão plural, tão acessível a todos, independentemente do estrato social, cultural, da idade, sempre fez sentido levá-la à rua. E hoje, cada vez mais, nos espetáculos na rua vemos, lado a lado, carteiristas e o presidente da câmara. Mas também vemos as senhoras de mais idade, que passam no autocarro e convencem o motorista a parar para que possam assistir ao espetáculo e depois lá as leva para almoçarem. Ou os jovens de capa e batina, se calhar naquela idade em que não gostam mais de outro tipo de coisas.

Mas o festival inaugurou, de facto, este encontro da magia com o grande público?

Exato. Foi o que aconteceu. Também porque as pessoas não davam muito o benefício da dúvida, porque a última referência que tinham da magia era a do Conde de Aguilar, há 60 anos. Este lado da magia, mais contemporâneo, mais rico em termos artísticos, mais versátil, mais diverso, era algo que não era conhecido, nem expectável. E foi isso que os Encontros Mágicos vieram trazer. Aliás, desde 1998, em que encontrámos esta fórmula mágica e que nem sequer é muito genial – um pouco como o ovo de Colombo – de levar os artistas ao público, que passou a ser replicado noutros sítios.

E replicou-se dentro e fora do país?

Replicou-se. Neste momento fazem-se, em Espanha, talvez 12 festivais diferentes. Todos eles nasceram depois de 1999. Porque se percebeu que isto resultava. E eu nem sequer reclamo para mim essa visão. Eu tive essa vontade e tive alguma sorte de apostar no cavalo certo.

Foi com o Luís de Matos que a magia atingiu, em Portugal, uma espécie de emancipação, a maioridade artística?

Mais do que comigo, pessoalmente, foi mais com o projeto como nós o desenhamos. Desde que eu comecei a fazer magia na televisão que tinha um objetivo e uma urgência. Sendo a magia uma arte plural, ela iria chegar a toda a gente. Acontece é que as pessoas nunca a tinham visto em todo o seu esplendor. Então, tive de fazer uma coisa politicamente incorreta. E essa foi a decisão de trazer a Portugal os melhores mágicos do mundo. Não sucumbir a regionalismos e trazer o portuguesito só porque é nosso e é muito bom. Não, é nosso e é muito mau. Decidimos trazer os de fora, os melhores, para inspirarem uma nova geração.

E inspiraram essa nova geração?

Inspiraram. E o que é certo é que, hoje, olhamos para a rua, para os espetáculos que estão a acontecer e conseguimos identificar jovens de 14, 15, 20 que nasceram e despertaram para a magia a ver coisas que nós fizemos. Não necessariamente eu, mas a ver os artistas que trouxemos a Portugal, algumas das 250 horas de televisão que fizemos para a RTP, alguns dos inúmeros festivais que aconteceram. Portanto, isso significa que conseguimos novos públicos – nos últimos anos temos tido mais 15 mil espetadores –, quando há tantas outras áreas artísticas que se digladiam pela criação desses novos públicos.

O que é que a magia tem para que tenha acontecido esse crescimento?

Tem uma característica particular, que é justamente essa universalidade, em que não é preciso qualquer tipo de conhecimento prévio, não é preciso estudar antes para perceber a genialidade daquele quadro ou saber a língua para ler este livro. No caso da magia, a criança de cinco anos ou o adulto de 85, têm tudo o que é necessário para que nós, mágicos, com a nossa criatividade, estimulemos a sua também. E essa é a fórmula secreta dos espetáculos de magia. A fórmula secreta dos espetáculos de magia é, voltando aquela imagem de ainda há pouco: o presidente da câmara, o idoso, o estudante de capa e batina, o carteirista, o turista, todos juntos a verem a mesma coisa, a sentirem-na de forma especial e diferente.

A deixarem-se encantar?

A deixarem-se encantar. Porque o que os mágicos fazem apela aos nossos sentidos, estimulando a nossa imaginação. Isso é extraordinário e esse é também o segredo do sucesso dos Encontros Mágicos.

Mas há também uma grande dose de partilha, de interação de afetividade até?

É o que nós sentimos. E isso percebe-se na rua. Às vezes até nas fotografias se percebe. Há pessoas que “colecionam” todas as experiências, vão às cerimónias, esperam nas ruas às horas certas. E sabem quando os Encontros vêm à cidade, esperam-nos, participam, aplaudem, perguntam por mágicos dos anos anteriores, trazem a coleção de programas para autografar. Isto significa que tudo aquilo que nós fomos dando – e que não foi à espera de qualquer retribuição – nos está a ser devolvido. Os Encontros Mágicos deixaram de ser um sonho, um projeto isolado, para passarem a ser parte do património cultural da cidade.

As pessoas tratam o evento pelo nome e isso é revelador?

É muito revelador. E até dizem apenas Encontros e já se sabe que encontros são. Porque o evento faz parte da vida das pessoas. Fico também muito feliz por perceber como a própria comunidade de comerciantes da Baixa nos acolhe. Inicialmente, éramos um pouco vistos como “invasores”, mas hoje recebem-nos bem, deixam os balcões e vêm para a porta e cumprimentam-nos. Como é bom o financiamento da câmara ter sido decidido por unanimidade, quando, recordo, as polémicas dos primeiros anos. E hoje quantas coisas são aprovadas por unanimidade? Não importa o que é, mas a unanimidade é quase proibida.

Unanimidade apesar das dificuldades financeiras crescentes e da consequente diminuição do apoio?

Claro. Eu acho que há várias coisas que se podem ler aqui. Primeiro, sim estamos em crise, sim temos de agir como tal. Estamos em crise e não vale a pena esconder. Não há dinheiro. Quanto mais rapidamente interiorizarmos isso – e, se calhar, é ainda isso que falta a muitos de nós –, melhor. Agindo depois em conformidade. Um facto igualmente óbvio é que se entendeu que tinha de se fazer. E o que eu sempre disse à câmara municipal foi que este é um evento da câmara municipal, que a câmara municipal oferece à comunidade, que oferece ao país através do exemplo, a forma singular como celebra a cultura nesta cidade. Agora, como é óbvio, nós estamos em crise, há menos dinheiro. Há uma coisa na qual não vamos cortar, essa é a qualidade. Mas, em vez de termos 12 artistas, temos nove. Em vez de virem dos Estados Unidos, há vários a vir de Espanha.

É por aí que tem de se fazer o ajustamento?

É por aí que tem de ser feita a “regestão” de tudo isto. Agora, há uma coisa que nós não poderemos nunca fazer: no dia em que se entender que a única via é comprometer a qualidade, então mais vale decidir que não, que não se faz.

Nesse caso até a paixão cede?

Mas não há outra via. Embora corte o coração a muita gente. Até à comunidade mágica internacional. Porque eu, cada vez que saio, percebo que no próprio currículo dos mágicos há um antes e um depois de Coimbra. E eu fico muito feliz com isso. Porque é um pouco o que conseguiu Edimburgo com o festival Fringe. Se existe algum espetáculo alternativo ou algum espetáculo de rua que diz “nós já fizemos Fringe”, na magia é “nós já fizemos Coimbra”. E isso é muito bom.

E é compensador?

É muito compensador. E compensador a vários níveis, pelo nosso trabalho e pela cidade.

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