Solidariedade cívica em Portugal

Padre João Evangelista

Solidariedade Cívica em Portugal – Uma utopia ou uma pista nova a considerar?

Portugal sensível e solidário com todos os povos vítimas de tragédias e fomes, está a contas com uma grave crise e está mais pobre com muita pobreza envergonhada. Recorreu aos poderosos que confirmaram o diagnóstico e prescreveram uma rigorosa e penosa dieta. Só num horizonte dilatado e com o sacrifício das novas gerações poderá chegar um tempo novo de regresso à normalidade.

De fora veem com espírito de benfeitores os senhores que não escondem o preço da ajuda – uma penosa tutela. Cedo ou tarde tudo será recomposto menos a desoma da hipoteca, que é também um bem moral, um bem de honra.

Temos em Portugal uma boa tradição de acudir a quem sofre.

Milhares de homens e mulheres praticam a solidariedade em instituições de voluntários ao serviço dos pobres, doentes, idosos, crianças abandonadas. Porque não aproveitar este património de bondade que há nos corações de tantos compatriotas portugueses para ir ao encontro de uma crise que começa a sufocar-nos por tantos lados? Porque não tentar criar um movimento de solidariedade cívica que ajude a reencontrar este Portugal doente e pobre?

Qualquer ajuda neste domínio não poderá ser nem parecer uma alternativa às responsabilidades dos governantes nem das instituições que servem o Bem Comum. A solidariedade não resolve os problemas mas pode atenuar os sofrimentos. A sua acção é modesta, humilde, simbólica.

A solidariedade cívica terá de afirmar-se e ser acolhida com entidade colaborante e respeitada sem tutelas políticas ou outras.

Será difícil deixar passar esta ideia de solidariedade cívica, como um movimento autónomo numa esfera que facilmente se identifica como campo de acção da política activa. Sem dúvida. Mas há razões para porfiar.

A primeira é a clara evidência que a Crise portuguesa precisa da ajuda dos portugueses em estilo de voluntariado livre e benevolente.

A segunda será a oportunidade de mostrar ao mundo a alma de Portugal, corrigindo agora e aqui o ditado “Casa onde não há pão…”

Para não nos limitarmos apenas a razões teóricas tentemos apresentar um esboço de uma acção possível.

Vivendo a séria angústia da dívida que desencadeou a crise, é a partir dela que lançamos a ideia do movimento Solidariedade Cívica.

Se entre 10 milhões de portugueses, 1 milhão se dispusesse a entrar neste movimento solidário com a entrega de 100 euros para a dívida exclusivamente teríamos uma tranche de 100 milhões. Para os que pudessem mais não haveria 10 mil com uma entrega de 10.000. E não seria possível solicitar aos mais abonados, aos que andam nas listas dos mais poderosos que aderissem à entrega duma contribuição de 100.00?

Teríamos assim uma gota de água para a dívida mas teríamos demonstrado ao mundo que a solidariedade suaviza as crises, as doenças e as tensões sociais. A democracia portuguesa também precisa de contar com o coração das pessoas e não apenas com a economia e os puros interesses materiais.

Só em atmosfera construtiva se podem resolver os problemas. E ninguém pode avaliar o mérito e o conforto de acção de solidariedade se não quando se vive envolvido numa crise grave.

A solidariedade é como uma semente que se semeia em terra boa. Não é uma esmola dos ricos para os pobres, não é uma transferência de um título de propriedade para outrem. É um partilhar a vida que se vive com quem sofre mais do que nós e a quem faz falta tudo.

Não é impossível e há muitos bons exemplos na nossa terra.

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