Revoluções

Aires Antunes Diniz

A perda da mala de viagem no regresso de S. Luís de Potosi foi irritante e, pior, consumidora de tempo necessário ao descanso e à escrita das impressões de viagem.

Quando chegou com três dias de atraso, a mala vinha feita num oito e faltava o meu casaco para as festas dos congressos. Mas, nos livros, que comprei e recebi, não notei qualquer falta.

Posso assim estudar as muitas revoluções mexicanas, sendo uma feita com base no Plan de San Luís (de Potosi), que ocorreu precisamente no mesmo dia em que fizemos a nossa revolução republicana. Foi baseada num documento que a organização do congresso colocou simpaticamente na nossa pasta.

Por felicidade, logo no dia em que cheguei, havia filmagens desta revolução. Junto aos locais onde se tinha realizado, concentravam-se os populares e os figurantes, mostrando talvez ansiar por uma revolução que lhes alterasse o dia-a-dia.

Continuando, tal como muitos, nós também já sonhámos a nossa, mas não a completámos porque habilmente os adversários o impediram. Felizmente, repusemos no 25 de Abril bem mais do que Alfredo Pimenta queria desfazer da revolução republicana, ao apoiar o 28 de Maio sem contemplação com os vencidos, escrevendo: “É assim que dispensámos a nossa assistência ao nosso colega de Letras, Roberto das Neves, aquando da sua prisão por agitador bolchevista”1 , arrependido já de o ter feito.

Como resultado da revolução mexicana de 1910, o ensino através da acção esclarecida de José de Vasconcelos, o primeiro titular da Secretaria de Educação Pública, o ministério da educação mexicano, criada em 1921, teve uma transformação radical.

Sobre ela, foram feitas três sessões no Congresso, uma abrangendo três países da América Latina: Argentina, Brasil e México; outra sobre o papel de José de Vasconcelos; e a última sobre a experiência da distribuição gratuita de livros escolares, que se repete desde há 52 anos. Informou-se aí sobre os seus custos baixos e do cuidado posto na correcção gramatical e científica dos textos.

Entretanto, em Portugal, os livros escolares são na generalidade descuidados e caros, contribuindo para o insucesso escolar e sobrecarregando os orçamentos familiares ao criar um negócio lucrativo.

Finalmente, favorecendo a transformação contínua do sistema educativo, foi visível no Congresso a participação activa e atenta de muitos funcionários da administração educativa mexicana no que foram apoiados activamente pela Secretaria de Educação Pública Mexicana.

Contrariamente, em Portugal, desde há quatro anos que os professores portugueses estão impedidos de ir a congressos por força da inteligência soberba de Maria de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos e sequazes. E tal impõe-nos o retorno à Normalidade Educativa como Revolução Necessária.

1 A Ide’a Nova, ano 1, n. 12, 22 de Março de 1928, p. 1,coluna 2

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