O pecado da usura

Marisa Matias

Temos de fazer sacrifícios. Vocês têm que receber menos e pagar mais.”

– “Mas, então, porquê?”

– “Porquê? Porque não há dinheiro!”

– “E não há dinheiro porquê? Desapareceu, foi queimado? E pagar o quê, se não estamos a ter mais, se estamos cada vez pior?”

– “Não, não desapareceu nem foi queimado, mas não há dinheiro, pronto. Quer dizer, haver, há, mas é só para quem sabe. Se vocês estão pior foi porque gastaram o que não deviam. Agora há que pagar a quem empresta e depois conversamos sobre o resto.”

(Silêncio)

Este poderia bem ser um resumo personificado do que tem sido a política nos últimos tempos. Diz-se que houve tempos em que a “economia sem dinheiro” funcionava de forma simples: havia um empréstimo, com ele fazia-se um investimento, daí resultava um retorno, pagava-se ao credor e sobrava uma margem. Mas esses eram também os tempos em que a usura era ‘pecado’ e os juros não subiam e desciam conforme lhes dava o vento. Tanto credores como devedores eram “pessoas de bem”, como se usava dizer nesses tempos.

Os tempos mudaram. Os credores continuam a ser pessoas de bem, mas os devedores não. Já não têm ‘crédito’, são, quase por definição, incumpridores. Aliás, os tempos mudaram tanto que quanto pior estiverem os devedores, melhor é para os credores… Mais ganham. Os tempos mudaram tanto que o dinheiro emprestado já não é para investir mas para continuar a pagar. E paga-se cada vez mais porque os juros são cada vez mais altos e porque a usura deixou de ser pecado e é alimento para os mercados financeiros. Nada disto soaria a muito normal não fosse a nossa nova condição: os devedores querem continuar a ter ‘crédito’, querem continuar a ser honrados junto dos mercados. Não foram os países deficitários que foram financeiramente resgatados, mas a política e a democracia que foram raptadas. Quem manda em seu nome são os mercados.

Na ‘era dos credores’ quem governa fá-lo por submissão e quem manda não representa. Alguns países encontram-se à beira da insolvência, enquanto outros se reunem em assembleias de novos credores que ditam, para eles e para os antigos, as regras do jogo. Os governos dos ditos insolventes correm atrás, comportam-se como paus-mandados, e aceitam que as decisões fundamentais para a vida das pessoas sejam tomadas fora das instituições que elas elegeram.

Visão parcial esta, sem dúvida. Mas é de um braço-de-ferro que estamos a falar e ele desenha-se entre os mercados e a política. Se fosse um jogo de futebol e não as nossas vidas podíamos ser adeptos dos mercados, que nos anos de crise costumam ser sempre campeões. Mas como é das nossas vidas que se trata, convirá resgatar rapidamente a política e a democracia. Sem elas, estamos tramados – essa é a verdadeira lição que estamos a aprender com os mercados.

 

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