Disciplinar as instituições

João Boavida

Falar na honra de uma instituição é falar nas pessoas que a fazem funcionar bem. Se falamos em instituições sem honra nem mérito estamos a falar nas pessoas que, do topo às bases, no modo como planeiam, decidem, executam e controlam essas instituições, lhe dão má fama. E que, portanto, de uma maneira ou de outra constroem essa má fama para si e para as instituições que deviam servir. As instituições são entidades abstratas que, por vezes, atravessam várias gerações. As pessoas que as fazem funcionar deixam atrás de si um rasto de boas ou de más práticas, de bons ou maus princípios de ação. Por isso há instituições que ganham bom-nome e o conservem. Outras, que perdem o bom-nome que tinham. Ou nunca o chegaram a ter porque nunca o mereceram.

Como se sabe, enquanto uma boa reputação leva muito tempo a construir, a desonra é rápida como labareda. Nas instituições, ao longo dos anos, entram e saem muitas pessoas. A instituição, por boa fama que tenha, fica refém das pessoas que a governam e as podem deitar a perder. Ou seja, ficam dependentes da competência, da inteligência, do caráter das pessoas que, do topo à base, mantêm a instituição e são dela o espelho e o reflexo para todos os cidadãos. E, obviamente, ficam reféns dos sentimentos que estão por debaixo e acompanham todas essas formas de ação. Mas, como os sentimentos não existem senão nas pessoas, as instituições, para lá dos princípios gravados em documentos antigos, ou propalados pelos responsáveis nas cerimónias solenes, revelam em todas as situações e em todas as ações os sentimentos e o carácter das pessoas que num dado momento histórico ocupam os lugares da instituição e a fazem funcionar bem. Ou mal.

Assim, para além dos objectivos de uma instituição, quase sempre altissonantes e pomposos, interessa saber como é que se atua nas situações correntes, como é que se resolvem os pequenos (e os grandes) problemas, como é que se relaciona com os cidadãos comuns, que respeito tem por eles. E como é que trata os que não têm “padrinhos”, nem andam a influenciar decisões, bichanando pelos corredores dos importantes do momento. É entre estas duas atitudes que se escolhe entre a grandeza e ou a miséria das instituições. E dos povos.

Infelizmente, em Portugal, há instituições que se especializaram no faz de conta, no faz que faz mas não faz. Ou faz mal, ou deixa por fazer, ou esquece o essencial para se gastar nas aparências e no desnecessário. Há demasiadas instituições que são exemplos acabados de corpos sem vida e sem carácter, vítimas de espíritos mesquinhos e desonestos que as comandam ou boicotam. Precisamos de uma renovação moral, porque há, tem havido, demasiada gente sem qualidade em muitas instituições portuguesas.

Veja-se este inqualificável caso do BPN e os enormes estragos que provocou na nossa fraca economia. E a benevolência desleixada e criminosa de quem devia vigiar. Há demasiadas instituições que se esqueceram já das razões por que foram criadas. E isto, que é sabido, não é fácil de resolver, porque o problema está precisamente nas pessoas, que são elemento essencial e que falham muitas vezes. Os que o deviam fazer carecem muitas vezes das qualidades necessárias. A democracia devia encontrar meios de os cidadãos poderem disciplinar instituições que, no segredo dos deuses, nos tramam a vida e se estão marimbando.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*