Digam e façam política de consequência

Lucílio Carvalheiro

Já é evidente que o governo de coligação PSD/CDS não vai além da «governança» do acordo feito com a troika (FMI, BCE, UE), ou seja: recusa liminarmente a bipolaridade política-economica e política-social. E neste quadro tudo lhe parece claro, linear: interpreta que perante a “falência” económica do país, se desmoronou o exercício político democrático de oposição, ou pelo menos foi suspenso por um largo tempo. E parece, à governança exercida pelo PSD/CDS, simples os motivos.

Acontece que o espírito de sacrifício, o sentido de missão, a consciência cívica do eleitor está a desaparecer, vertiginosamente, pondo em causa as Instituições Democráticas; aumenta o vazio ideológico e/ou doutrinário da sociedade.

Nesta perspectiva convirá prever, sem especulação excessiva, que perante a natureza da política económica – pura e dura – imposta pelo memorando acordado com a troika, quanto ao aspecto do interesse nacional, o que parece – não é. Na verdade, assistiremos a curto-prazo ao colapso da classe média baixa, ao agravamento da pobreza.

E é dentro desta constatação que temos de observar as elites políticas portuguesas e se estão à altura das suas responsabilidades.

E do mesmo passo, a organização política – a revisão das leis eleitorais e redução drástica dos cargos políticos eleitorais – observada à luz da defesa do Estado, ganha relevo novo: e, se suscita prejuízo ao negócio aparelhístico partidário, também permite a defesa do eleitor em aspectos que muitas vezes esquece. E isto terá que ser havido como mais avisado tocar.

Decerto: convém que não me faça ilusões; muito raramente o cidadão-comum se encontra em situação de se ter de preocupar a respeito da política como “ciência” generalizadora da governação do país; em regra, só se interessa em discutir sobre acontecimentos pontuais e a sua aplicação prática no seu dia-a-dia – por estranho que seja tem a propensão de aceitação não critica, digamos masoquista, que acaba por o levar a submeter-se à, convenhamos que também o é, “tortura política”. Não espanta, pois, que à luz dos holofotes mediáticos a nossa classe política, em exercício, se delicie em proferir frases feitas, altissonantes, que a cada prova coxa dos fundamentos das novas medidas que apregoa, oferece ao eleitor novas muletas de continuidade dos sacrifícios a que o submete.

Dito isto, parece-me vantajoso que a massa dos portugueses tomasse consciência destes aspectos para se aperceber quanto país está ser depauperado politicamente. Não é apenas a dívida soberana que, é bom não esquecer, temos de pagar. Razão mais que suficiente para exortar que se diga e faça política elevada, de consequência….já que, no que concerne à política externa o que parece – não é; e o que se passa quanto à política interna, o que parece – é.

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