Crónica da vila do Espinhal

Mário Nunes

Gozar férias e suprimir ao tempo de descanso uma estada no torrão natal, seria indesculpável e podia entender-se que a Vila do Espinhal nada teria para oferecer e que o emblemático, paradisíaco, monumental e encantador território da freguesia do concelho penelense deixara de ser atractivo na beleza, satisfação espiritual e enriquecimento cultural, valores tão presentes nas diversas áreas da sua grandiosidade. Todavia, quanto mais tempo medeia a ida à Vila, maior satisfação e alegria sentimos quando chegamos e aqui permanecemos alguns dias afastados do frenesim do quotidiano de todo o ano.

Esta crónica pretende materializar algumas das virtualidades que abundam neste lugar maravilhoso, prenhe de riquezas naturais e culturais, que deixa recordações, que aprisiona imagens, que constrói diálogos num Verão que mal amanhece, logo deixa pôr-se outro e erguer um outro. Nos intervalos reúnem-se os momentos vividos e consolidam-se amizades antigas ou adquiridas na “viagem” às raízes.

Neste entendimento, queremos partilhar convosco as novidades encontradas e os valores e tradições renovados no ciclo anual. O Centro Histórico, por exemplo, requalificado, articula a ancestralidade, a história e a monumentalidade com as alterações introduzidas e enquadradas no novo visual das artérias, do casario e do património herdado e que continua a cumprir as primitivas funções. As ruas principais passaram a acolher uma feira de velharias que casa com a antiguidade do espaço e acarinha a mostra de artes e ofícios tradicionais, um êxito, logrando fazer recuar a Vila ao período áureo dos mesteres e do intenso comércio, protagonistas de tempos passados e saudosos. São “novidades”, que sendo “velhas”, no conteúdo, se apresentam modernas pela actualidade pedagógica que oferecem aos jovens e pelas recordações agradáveis deixadas aos mais idosos.

A festividade secular da Senhora da Piedade trouxe do Monte Calvário, em solene procissão, a imagem da Virgem. Acompanhada pelos acordes da centenária Filarmónica do Espinhal, percorreu algumas das tradicionais artérias e fica abrigada, uma semana, na monumental Igreja Matriz. Constitui momentos de fé, de devoção, do cumprimento de promessas e de novos rogos à Senhora. O percurso processional proporciona sempre um espectáculo surpreendente pelo movimento dos fiéis e pelo andor (este parece sobrevoar o local), devido à disposição do plano urbanístico da colina, que ilude um caminhar em sentido contrário da procissão.

Mas, outros motivos polarizam, agradavelmente, a Vila. Um vasto programa cultural até 4 de Setembro e que culmina com a famosa Feira do Mel, encadeia teatro, exposições de artes plásticas, ateliers de pintura e teatro, mercado de agricultura tradicional, tasquinhas, baile mandado, concertos musicais, cortejo de rua inspirado na figura da Viscondessa do Espinhal e outras actividades religiosas e profanas, a par dos valores presentes na igreja, nas capelas, nas casas e palácios brasonados, na gastronomia e artesanato, nas riquezas naturais da Pedra da Ferida, da praia fluvial da Louçainha, dos miradouros, do soberbo panorama do São João do Deserto, da Ribeira da Azenha, do Calvário, da arquitectura rural das aldeias serranas, dos parques de merendas, dos moinhos e azenhas, do silêncio retemperador, dos gorjeios dos pássaros, da limpeza esmerada das ruas. Enfim, uma Vila e freguesia, hospitaleiras, que sendo o coração e a alma do concelho de Penela, vos convida com amizade, ali alguns dias desligados do frenesim de todo o ano.

One Comment

  1. Margarida G. says:

    A página do Mário Nunes vai fazer muita falta ao Espinhal. Ele também.

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