Crise faz crescer violência financeira sobre os mais velhos

Foto: Gonçalo Manuel Martins Agredidos, abandonados pelos próprios filhos, subornados, esquecidos pela sociedade. É esta a realidade de muitos idosos em Portugal. Uma realidade que não está, infelizmente, longe de cada um de nós: em Coimbra, só no ano passado, o gabinete de Coimbra da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) assinalou 24 processos de apoio a pessoas idosas vítimas de crime e de violência. A nível nacional foram registados 610 casos.

Estes números escondem, no entanto, uma outra verdade: os casos de abandono nos hospitais ou em lares, que aumentam em períodos festivos – como é o caso do Natal ou das férias.

Estes são os velhos de um país em que a crise parece justificar quase tudo.

“Em tempo de dificuldades, pode haver uma tendência de fazer exploração financeira sobre o mais velho”, diz ao DIÁRIO AS BEIRAS o gerontopsiquiatra Horárcio Firmino. Os casos de burla são dados a conhecer pelos órgãos de comunicação social. Mas existem outros, mais perversos e preocupantes: “a chantagem financeira, a utilização indevida dos recursos de um idoso são algumas das formas de violência financeira contra a terceira idade e geralmente praticados pelos familiares”, afirma o especialista.

“Existem pessoas que demonstram disponibilidade para cuidar do idoso com esse intuito. Mas há também quem não tenha escrúpulos, exercendo coação sobre o idoso, de modo a satisfazer os seus próprios caprichos e não necessidades”, acusa o gerontopsiquiatra, que integra a Associação Europeia de Psiquiatria Geriátrica .

Esta realidade não é, aliás, desconhecida da APAV. De acordo com Raquel Simões, psicóloga e assessora do gabinete de Coimbra, “a violência financeira é a mais calada das violências. Os idosos ficam mais vulneráveis e não denunciam os próprios cuidadores. Alguns sentem vergonha. Outros, medo de represálias”, salientou.

Aumento de 120 por cento

do número de casos em nove anos

A violência contra idosos está a crescer ou, pelo menos, há mais denúncias que são, apenas, a ponta do icebergue. São vários os estudos que confirmam estes dados: além da APAV, um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado recentemente, refere que 39 por cento da população idosa portuguesa é alvo de violência.

De acordo com a APAV, entre 2000 e 2009 verificou-se,em Portugal, um aumento de 120 por cento do número de casos de pessoas idosas vítimas de crime (mais 349 casos).

São casos, não só de maus tratos psicológicos, mas de violência física ou abusos sexuais. Horácio Firmino lembra que só as situações de abusos físicos são reportadas. “É uma problemática ampla. Devemos ter sempre atenção quando surge um idoso vestido com camisolões e roupas que servem para esconder qualquer coisa”, alerta.

Relações familiares mais ausentes, fruto, também de uma sociedade cada vez mais individualizada. Para Manuel Teixeira Veríssimo, regente da cadeira de Geriatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, os idosos de hoje não foram preparados para serem idosos. Tão pouco, está preparada a sociedade para cuidar deles. “Não nos preparámos para este aumento brusco do número de pessoas idosas”. Ainda assim, o especialista acredita que a violência sobre os mais velhos tem vindo a aumentar também porque tem havido mais queixas e mais casos diagnosticados. E, depois, a crise. Sempre a crise a “justificar” a “violência psíquica ou moral”, a chantagem financeira.

Sós e abandonados

em lares e hospitais

Aos casos de maus tratos, somam-se os de abandono. Em muitas circunstâncias, quando é da velhice que se trata, a indiferença e o abandono são os que mais danos causam. Não haverá pior solidão do que ser deixado num hospital.

“Há casos reais, mas as pessoas devem saber que a lei diz que os descendentes (ou ascendestes) são responsáveis por aquela pessoa. Existe uma responsabilidade civil. Hoje fala-se muito de direitos e esquecem-se os deveres”, lamenta Horácio Firmino.

Noutros casos existe “uma grande pressão” para o encaminhamento dos doentes para as unidades de convalescença ou de média e longa duração da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), cuja resposta é, ainda, insuficiente.

Que respostas?

“Este país tem velhos, cada vez mais velhos, muitos velhos, mas ainda não tem condições para tratar dos velhos com boa qualidade”, diz Teixeira Veríssimo.

Uma intervenção alargada, em rede, com especial atenção aos cuidados primários mais próximos dos idosos – é, para Horácio Firmino, um passo a dar na prevenção de situações de violência. Mas há muitos mais na área da gerontologia.

A este propósito, o padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, comparou, recentemente, o abandono dos idosos “aos gatos que, quando pressentem a morte, evitam os afetos humanos”.

“É o falhanço da família e da vizinhança. É o primado dos números e do ter. É a desvalorização do ser e do estar. É a inversão e a perda dos valores. A solidão pode ser opção de vida, mas certamente não é opção para a morte”, referiu.

Numa sociedade que privilegia o imediato e o acessório, importa lembrar que amanhã seremos nós. E ninguém quererá ser uma pessoa velha abandonada , lançada perante o facto da sua morte irremediável.

(Leia mais na edição impressa do dia 11 agosto 2011)

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