Como é que estão as coisas por lá?

Gonçalo Capitão

De regresso à etapa africana da vida, trago as primeiras impressões de Portugal, de há um ano e tal a esta parte (incluindo a excelente despedida que a Académica me proporcionou na Marinha Grande, na véspera de partir). Já por cá, a pergunta repete-se: “como estão as coisas em Portugal?”.

Com franqueza não sei se esperam uma resposta muito ilustrada, mas fico sensibilizado com o patriotismo e atribuo a pergunta à calma que emana dos noticiários nacionais da RTP Internacional (do pouco de bom que têm as sua emissões, a meu ver), sobretudo quando comparados com as imagens recebidas de Inglaterra, Grécia ou mesmo Espanha.

Cá por mim apenas consigo ter pinceladas impressionistas e angústias quase surrealistas sobre o nosso País.

Assim, em primeiro lugar, espanta-me a comparação do preço das coisas com os cortes salariais e com o aumento (apesar do ligeiro decréscimo do último indicador) do desemprego; dois indícios desgarrados: não imaginava que um bilhete de cinema (acesso à cultura, portanto) custasse mais de seis euros, e não sonhava que o litro de gasolina 98 pudesse rondar o euro e oitenta cêntimos numa auto-estrada (quase dois euros!!!)…

Por outro lado, nos saldos das marcas de média/alta qualidade vi uma abundância de escolha que não era comum em tempos idos, e constatei que os restaurantes da mesma gama tinham bastantes mesas disponíveis (em muitos casos incluindo a que eu próprio não ocupei).

Contudo, confesso que mais do que notas esparsas desta sorte, trouxe uma preocupação de monta maior: ao ver que as fatwas da Troika incluem a venda das participações do Estado em empresas estratégicas (TAP, REN, EDP e outras), fico a pensar o que faremos da próxima vez que o País estiver com a corda ao pescoço (algo que é cíclico na nossa História)… Nacionalizamos?! Bem sei que o Governo não tem qualquer remédio, mas não deixo de entender que alguma presença em certos sectores poderia ser estratégica e/ou lucrativa e de me perguntar se os Estados francês, alemão e italiano não conservam posições empresariais que obrigam os seus congéneres alienar (confesso, neste ponto, a minha real ignorância).

A somar a isto vem o assunto que temos discutido nestas páginas e que se prende com o facto de sermos incipientes nas exportações e não nos especializarmos em nichos produtivos de qualidade. Enquanto povo bastamo-nos com a invenção da Via Verde e a gestação do CR7, achando que não há quem nos iguale e deixando essa maçada que é o trabalho árduo para os trouxas do Norte da Europa, que não saem à noite e que não se riem nem perdem uma hora no café quando estão nos seus empregos. Sermos ricos e desenvolvidos envolve suor e nós, gente de fado e boa bola, vemo-nos idiossincraticamente como um povo perfumado.

Vamos ver o que muda até à próxima visita à Pátria.

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