Avaliação docente: à procura das evidências!

João M C Serôdio

O ano letivo já terminou e imersos na correção dos últimos exames muitos professores, que almejavam ir de férias, esmifram-se na produção de um relatório de autoavaliação de seis páginas que procura resumir dois anos letivos da sua vida profissional que vão de 1 de setembro de 2009 a 31 de agosto de 2011 e que representa uma das peças-chave do modelo de avaliação herdado da ex-ministra Isabel Alçada.

Atendendo a que esse relatório incide sobre as dimensões da atividade profissional (vertente profissional, social e ética; Desenvolvimento do ensino e da aprendizagem; Participação na escola e relação com a comunidade educativa; Desenvolvimento e formação profissional ao longo da vida) e que a análise realizada deve estar alicerçada em evidências, nada mais interessante do que ir, não à procura de Waly, ou da Susana, mas para sua desdita, das ditas.

Os teóricos do sistema até correram esbaforidos, dando laivos a uma imaginativa estruturação e consequente modo de apresentação. Porém, é certo que muitos dos “seviciados” acabarão por se quedar pela simples fotografia, ou fotocópia do livro de ponto, o que dará azo aos mais amplos debates sobre o sexo dos anjos, que começa no facto do Decreto-Regulamentar n.º 2/2010, aparecer a 23 de junho de 2010, ou seja a meio do ciclo de avaliação, e se a “coleção” de evidências se reporta a 2009/2010, o que significaria uma originalidade legislativa de efeitos retroativos. Porém, eu estou convencido que, qual panaceia universal, as circulares encontrarão a solução remetendo os mais críticos para a habitual obscuridade.

Foi anunciado por este ministro da Educação, Nuno Crato, que o modelo ia ser substituído e que estariam a trabalhar num novo, quando o que já deveria ter ocorrido era uma suspensão do atual. Ora, o que eu gostaria de compreender, mesmo, era o que é que mudou agora, relativamente à posição do PSD nesta matéria, quando este partido estava na oposição.

Há uns meses atrás, a posição era de suspensão e parece que atualmente é de substituição. As diferenças entre suspensão e substituição não se resumem a mera semântica e têm consequências na vida das escolas e dos professores que lá trabalham que mais parece estarem a ser vítimas do jogo do “empurra” com estas “subidas e descidas” ao Parlamento.

Os professores das escolas portuguesas, à semelhança do que acontece nos outros países, precisam de estabilidade e tranquilidade profissional, que são condições essenciais para qualquer manter viva uma perspetiva de futuro.

Afinal, a continuação do “status quo” atual está a interessar a quem? Os alunos estão de férias e aos professores não será, certamente, porque precisam de ganhar forças para o novo ano letivo que se avizinha e que não se afigura fácil, com as mudanças já introduzidas de currículos e o planeamento das atividades letivas, tendo como pano de fundo o encerramento de muitas escolas.

A derradeira evidência que procuro, nesta etapa do meu “modelito”, pela parte do Governo e dos senhores parlamentares dos vários quadrantes, é a do respeito pelos profissionais que educam os vossos filhos e que durante o ano se deslocaram dezenas e centenas de quilómetros para locais distantes dos seus, que deixaram (oh ironia suprema!) entregues aos avós, aos vizinhos, ou até aos amigos, sem esquecer aqueles que viram (ou ouviram!) o seu contrato acabar pelo telefone, porque estamos em crise e ele não pode ir até ao fim de agosto.

Ainda estou convencido que a hei-de encontrar este ano, ou será que me engano?

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