O Ministério das Finanças

Aires Diniz

Agora muitos partem para férias, mas infelizmente quase todos sentem como estando em risco parte dos seus salários, temendo comportamentos abusivos do Ministério das Finanças, como resultado das medidas preconizadas pela Troika externa. Contudo, tudo resulta muito mais dos desleixos continuados de sucessivos governos e do Banco de Portugal que todos conhecemos e que quase todos fomos aceitando como bons. Fomos por isso obrigados a aceitar a nacionalização do BPN, que aconteceu como resultado do comportamento irresponsável do Governador do Banco Portugal, Vítor Constâncio, acompanhado pelo Ministro das Finanças, Teixeira de Santos. Seguiu-se, como sabemos, a aventura desta nacionalização que foi afundando as finanças do estado num buraco sem fundo que nunca o governo quis explicar.

Receia-se agora que nas privatizações muito aconteça como em 1912, onde prejudicando os Museus Nacionais então em formação: “O Ministério das Finanças contrariamente às leis, pôs em venda pública o mobiliário e peças decorativas dessas proveniências. O leilão durou muitos dias. Queimou-se tudo a baixo preço. Artefactos e livros, etc., tudo, que tinha estimação e valor, foi lançado à voragem!”

Para António Augusto Gonçalves, tudo se resumia à venda de bens culturais que em parte foram para o estrangeiro. Agora, tudo é bem mais complicado porque o Ministério vai continuar alienar a riqueza nacional, deixando-nos sem bens estratégicos.

Com Giacomo Luzzatti, no início do século XX, os italianos e mais tarde os portugueses, sabiam que, quando a política financeira falha por inabilidade ou perversidade dos governos e/ou da banca, a solução estreita será a aplicação de uma crise económica em que quem a sofre são os trabalhadores.

E durante o século XX, diversos economistas, com relevo para John Maynard Keynes, explicaram como era possível gerir as economias controlando os altos e baixos da actividade económica. Infelizmente, nos últimos anos, fomos ludibriados pelos que dizem que a gestão macroeconómica deve ser feita através da manipulação do valor e quantidade da moeda, esquecendo-se que o que sustenta o nosso modo de vida é a produção. Os EUA foram assim pensando que bastava a emissão de sempre mais dólares para que tudo ficasse bem, mas agora está próximo de entrar em incumprimento das suas obrigações. Na Europa, pensou-se que bastava reduzir produções agrícolas, e até as industriais, para que tudo ficasse bem e Portugal acreditou nesta balela, agravando o deficit da sua balança de pagamentos e entrando em quase colapso financeiro.

E estando assim demonstrado que a política monetária, só por si, nada resolve, há que mudar de vida. Mudemo-la.

(1)António Augusto Gonçalves – Enumeração das obras preparativas para a instalação do Museu Machado de Castro, Tipografia “O Despertar”, Coimbra, 1929.

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