Reparação

Quem consultar “A Velha Alta… Desaparecida” – Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, Almedina, 1984, (2ª edição em 1991), lá o vê em duas ou três perspectivas. Estou a falar do Arco do Bispo, ao fundo da desaparecida Rua de São João, que descia da famosa Rua Larga, também destruída e era caminho para a Baixa. Ligava o Paço do Bispo, no que hoje é o Museu Machado de Castro, à Sé Catedral – a Sé Nova – e era um belo e forte arco abatido, que suportava um passadiço, com janela a meio, entre as duas austeras construções. De um lado, o edifico do Colégio de Jesus, e do outro a residência do bispo de Coimbra, ou melhor do senhor bispo de Coimbra e conde de Arganil, que, não podendo correr o risco de, ao passar do Paço à Catedral, molhar o pé de verniz e as vestes purpúreas, o mandou construir em finais do século XVIII. Acabava por funcionar como uma das entradas na Alta e teria hoje, no conjunto que se adivinha pelas imagens, valor arquitectónico, estético, patrimonial e, claro, sentimental.

Como não encaixava nos caixotões que nos anos 40 Duarte Pacheco mandava implantar, mesmo onde não cabiam, o arco veio também abaixo no terramoto da Alta coimbrã. Já todos lamentamos o sucedido, e não vale insistir, até porque a toda a hora voltamos ao mesmo. Passamos a vida a remodelar e a modernizar, e para isso temos sempre que destruir. É uma fatalidade nossa.

O mais engraçado é que os destruidores, por desleixo, saudade ou resistência passiva, “esqueceram-se” de acabar o serviço e deixaram na parede do Colégio, durante setenta anos (70!) o sinal desse arco. A parede, rebocada em grosso e com uma argamassa pobre entre o ocre e o cinzento, nunca foi acabada. Lá estava o hematoma a descoberto, a cicatriz deixada pelo telhado arredondado do passadiço e as emendas toscas de um trabalho feito a correr e com má consciência. Lembro-me de reparar, quando cheguei a Coimbra, naquele remendo, e na própria parede do Colégio, junto à rua, que ficara descarnada pelo desnivelamento de todo o pavimento imposto pelas novas construções. E de achar estranho que, durante tantos anos, ninguém desse um jeito àquela parede, recompondo as pedras do lambril e alisando e pintando no sítio que fora a entrada do passadiço, na parede do Colégio de Jesus, sobre o arco desaparecido. Foi preciso esperar mais cinquenta anos para alguém decidir recuperar todas as paredes do edifício e sarar a ferida.

Mas o mais comovente vem agora. Os pintores de hoje, tocados pelo que viram, em vez de se limitarem a rebocar e a pintar a parede, apagando os antigos restos, fizeram dele pormenor de arte. Sobre a parede recuperada pintaram, em tons de beije, os contornos do antigo arco, dando-lhe elegância e beleza que o remendo não tinha.

Criaram assim um sinal, para o futuro, da história passada, e um enigma para os turistas, à moda do memorial da Ponte das Barcas, na Ribeira do Porto. Mas, ao transformarem em arte o que era desleixo e incúria, criaram, com algumas pinceladas, uma imagem de nós mesmos. Rico povo este que equilibra velhos desleixos com artes novas e sublima em beleza um sentimento de pesar e de perda. Temos motivos para pensar que os gemidos deixados na pedra pelo arco destruído encontraram finalmente eco no coração dos artífices que, assim, transformaram em memorial da destruição o que fora esquecida incúria desse destrutivo acto.

Em suma: estética sobre o desleixo, do que fora, talvez, esquecimento por má consciência, duma destruição por más decisões, a partir de uma péssima ideia, que ao tempo parecia boa. Salvou-se, no fim da linha, um sentimento. Valha-nos ao menos isso.

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