Religião e suicídio

Com a idade aprende-se muita coisa, até deixar de apreciar os dias festivos. Em pequeno julgava que eram a coisa mais natural do mundo, uma espécie de sorte que nos calhava de tempos a tempos, e sempre menos do que desejaria. Agora, confesso que sofro deste destempero há algum tempo.

A necessidade de encontrar explicações para tudo levou-me a inventar uma, sempre vale mais do que nenhuma, ou os dias festivos são demasiados artificiais, ou, então, sou eu que me tornei insensível ao natural. E se ambas estiverem corretas, tanto melhor, assim reparto as culpas.

Por esta altura, no ano passado, escrevi um pequeno texto sobre a solidão, o que faz todo o sentido, porque este tipo de dor de alma faz-se sentir com mais violência nas datas festivas. Também me recordo das circunstâncias em que a escrevi e da leitura de um artigo sobre suicídio, depressão e formas de prevenção.

É do conhecimento geral que as depressões se agravam nestes períodos. Sendo assim, não é de estranhar que uma das consequências, o suicídio, aumente. Para o efeito, nalguns países, existem planos de atuação para prevenir este problema. Sinceramente, sei que existe uma catrefada de planos de prevenção em Portugal, bem elaborados, verdadeiros exemplos de retórica académica, difíceis de igualar, para tudo e mais qualquer coisa, mas para o suicídio desconheço. Às tantas até deve haver, mas mesmo que haja, sabendo como somos e como andamos, o resultado deverá ser o mesmo, ineficiente.

As alterações sociais e económicas que estão a violentar os portugueses não serão inócuas em termos de saúde mental, longe disso, espera-se mesmo um agravamento substancial, a que não faltará um incremento de suicídios. Não quer isto dizer que somos um povo de suicidas, se bem que Unamuno nos tenha caracterizado como tal. “Portugal é um povo triste, e é-o até quando sorri. A sua literatura, incluindo a sua literatura cómica e jocosa, é uma literatura triste. Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Desejam talvez viver, sim, mas para quê? Mais vale não viver.” Unamuno não era epidemiologista e, como tal, desconhecia que, até, nem nos matamos como outros povos. Mas agradeço-lhe a sua análise sobre nós, porque nos conhecia muito bem.

Quanto mais baixa for a integração social maior é o risco de suicídio. Durkheim, no século XIX, fez interessantes estudos nesta área e até demonstrou que as comunidades católicas se suicidavam menos do que as protestantes. Os seus estudos enfermavam de alguns vieses, porque foram feitos numa base ecológica, de análise de grupo, mas, agora, um interessante estudo epidemiológico efetuado na Suíça, numa base individual, demonstrou inequivocamente que as taxas de suicídio são substancialmente mais baixas entre os católicos do que nos protestantes e nos indivíduos sem filiação religiosa. Este fenómeno ocorre em todos os grupos etários, sendo muito mais intenso entre as pessoas mais idosas e nas mulheres, e, particularmente, no caso de suicídios assistidos. Todos os fatores que possam influenciar estes achados, de natureza educacional, económica, sexo e outros, foram devidamente ajustados, permitindo afirmar que a religião constitui uma força social muito importante na análise do modelo dos suicídios, sendo o catolicismo superior ao protestantismo e, naturalmente, aos não afiliados.

Apesar de não estar provada a teoria social de integração, a religião constitui uma importante força social, pelo que é muito provável que, entre nós, irá ocorrer, nos próximos tempos, um reforço e reativar do fenómeno religioso, ante as expectativas de miséria que já está a atingir muitos portugueses. Não sei se os nossos compatriotas irão, mesmo assim, partilhar da alegria inerentes a algumas festividades, mas se alguém os ajudar a controlar a depressão e o negrume do futuro, tudo bem. Resta saber até onde e quais as consequências, porque em matéria de religião há sempre vontade de ir mais longe ao impor certas ideias e princípios. O tempo se encarregará de esclarecer estes comportamentos.

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