O ramal de São Tomé

Para os ficcionistas do romance ou do cinema coloca-se com pertinência o problema da verosimilhança das cenas e episódios. Muitas vezes, o escritor ou guionista rasga o que inicialmente escreveu convicto de que seria pouco crível. Mas a verdade é que a realidade é tantas vezes mais inacreditável do que a ficção.

Os jornais referem como verdadeiro o episódio vivido em Nápoles na noite de passagem de ano com Darco Sangemano. Darco foi atingido na cabeça por uma bala perdida disparada durante os festejos. Ao chegar ao hospital, Darco espirrou e a bala de calibre 22 saiu disparada pela sua narina, pouco traumatizando o feliz Darco. Incrível! Fosse ficção e ninguém acreditaria. Sendo verdade, não nos resta outro remédio senão acreditar. São Tomé andará baralhadinho de todo.

O que por aí se vê… E vendo, crê-se. Ele pelo menos crê, ou não o tivesse proclamado. Eu cá por mim começo a desconfiar do próprio São Tomé, ou pelo menos da sua máxima, até agora tida por todos, e também por mim, como de enorme sabedoria. Santo, mas não parvo. Quem pode crer – mesmo vendo – que onde até há bem pouco tempo existia um ramal ferroviário, carris ligando Coimbra a Serpins, exista agora um enorme corredor de coisa nenhuma, uma espécie de rio seco?

Se alguém tivesse escrito um episódio destes numa telenovela ou num capítulo de um romance seria de imediato convidado a dedicar-se a outra vida, nunca ninguém o levaria a sério. Mesmo na ficção há limites de credibilidade. A imaginação não tem fronteiras, mas não se aceita que seja patética!

Decorria o ano de 1873, reinava D. Luís, oficialmente por portaria anunciava-se a construção do Ramal da Lousã. Em 1887, a linha foi concessionada à firma Fonsecas, Santos & Viana, prevendo-se que a via reduzida unisse Coimbra a Arganil, tendo mesmo aquela empresa solicitado o prolongamento do ramal até à Covilhã. As obras do ramal decorreram por dezassete anos. Em 1906, a 16 de Dezembro, houve festa rija na Lousã! “Está em festa a Lousã. A partir de hoje, tem lugar no mundo activo e febril da civilização; ficam-lhe abertas as portas de todos os grandes centros de actividade humana”, registava então o jornal Louzanense.

Em 2010, depois de arrancados os carris, com direito a pompa e circunstância, e registos para memória futura, em nome da construção de um Metro que o governo do PS liquidou, as populações de Coimbra, Miranda e Lousã regressaram ao início do século XX! Ficção ou realidade? E a cidade de Coimbra ficou esventrada, o seu centro histórico, comprometido com as obras do Metro, esburacado como se tivesse sido alvo de bombardeamentos. A Coimbra, cidade com uma histórica riquíssima, faltava-lhe o seu blitz!

Depois disto, meu caro São Tomé, não mais porei em dúvida que haja balas espirradas pelo nariz, ou ursos de patins. Tudo bem mais crível do que este manancial de reais malfeitorias!

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