Fernão Vasques, o alfaiate

Estão os portugueses perante um degradante quadro político, legal, ético, e para o acreditarmos bastará ter presente quantas modificações profundas sofremos apenas se nos atendermos à adulteração do significado das palavras.

A que novas realidades conceptuais teremos de nos afeiçoar? Que valores novos se nos deparam? Que significado têm as palavras no discurso político, legal, ético? E aqui tocamos um fenómeno cíclico na crónica sociológica de Portugal.

Pois bem. Muitos actos políticos, legais, éticos, desgostam o comum dos cidadãos; não obstante a elite política está ausente e alheia. Espera serena, sossegadamente, irresponsavelmente, que Fernão Vasques, simples alfaiate, apoiado por besteiros e homens de pé, os convoque e, no local do encontro ajustado (a rua), lhes diga do agravo de todos.

Dito isto. No quadro político a República Portuguesa debate-se em torno de várias “legalidades” em conflito; a um lado, o respeito pelo resultado das eleições legislativas, exigidas como valor supremo democrático, tido como único legítimo e válido poder governativo; de outro lado a oposição aferrada a uma legitimidade politica informal, aterrada com a perda de posições ou o prejuízo de interesses, apegando-se a ideias de ocasião; por outro lado ainda, as regiões autónomas –“juridicamente independentes (Parlamentos Regionais) e financeiramente dependentes (Lei das Transferências Financeiras Nacionais” – entendem que a sua legislação local (Parlamento Regional) prevalece para além da legislação da República; seguem-se as 4.360 Juntas de Freguesia e 308 concelhos num coro “todos ao molho e fé em Deus”, reclamando a legitimidade, dita de proximidade eleitoral, ou, como diz o povo “todo o burro come palha, é preciso é saber como lhe a dar”.

Acresce que: “Quando o Sol nasce é para todos”, pelo que os serviços públicos podem ser privados, conquanto o Estado pague os prejuízos ou enriqueça os empresários – o fim justifica o meio, o resultado final não é relevante.

Pois bem. É dentro deste quadro geral, dentro de um critério acaso simplista, que Fernão Vasques, o alfaiate, me pergunta se os dirigentes partidários, as classes sociais, eu próprio, estamos à altura das nossas responsabilidades perante a sociedade civil, o Estado de Direito? Não há que repensar acontecimentos, nem invocar factos que estão na memória de muitos, ou pelo menos de alguns, permito-me, tão-só, responder-lhe aqui, agora, e enquanto é tempo. Não, não estamos.

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