Como se conjuga o verbo popular?

Três trabalhadoras da Eurest enfrentam processos disciplinares para despedimento por roubo. Por roubarem sopa. Li no jornal. Não num jornal de referência, como agora se apelidam dois ou três dos nossos diários. Nesses não vi a notícia, embora certamente lá estivesse. Por acaso, ou talvez não, conheci a história no semanário “Avante!” – o órgão oficial do Partido Comunista Português. Três mulheres roubaram reiteradamente a empresa Eurest.

A Eurest tem 600 restaurantes em Portugal, nela trabalham cinco mil trabalhadores, pertence ao Grupo Compass, a maior multinacional do sector com 400 mil trabalhadores e restaurantes em 70 países. E com tantos trabalhadores – “colaboradores” como se diz na gíria patronal – e logo aquelas três mulheres deram em roubar. Um pratinho de sopa não se nega a ninguém, diz o povo por esse país fora. Mas o adágio aplica-se a casa de pobre e não a multinacionais.

E é certo – há uma enorme diferença entre mendigar e roubar. Estas mulheres pediram sopa a alguém? Não! Levaram para casa restos de sopa sem autorização superior, sem conhecimento de nenhum colaborador superior! E o que deviam ter feito aos restos de sopa de acordo com as rigorosas normas da empresa? Simples. Muito simples: deitá-los fora. Para o lixo.

Grande crime cometeram as três “colaboradoras” da Eurest, neste caso comprovada e sumariamente pouco ou nada “colaboradoras”. Levaram para casa para dar de comer aos filhos o lixo da empresa! Ora, convenhamos, em tempo de crise e austeridade tem de haver rigor. E moral! Não importa o que prevê o código de trabalho em matéria disciplinar de tanta gravidade. Ou se o código penal é suficientemente severo para ser exemplar. Roubar lixo para comer é um crime inqualificável! É ver a imensidão dos soldados do exército dos combatentes da pobreza.

Ele é ver os mais notáveis da Nação, nobres damas e cavalheiros nas mais diversas distribuições caritativas.

Anda para aí tanta alma caridosa a dar sopas aos pobres e há quem se atreva a roubá-la! Sobretudo quando em rigor já não de sopa, simples sopa, se tratava, mas de restos, e restos não são alimentação natural. Nem para cães. Oxalá o inquisidor – queria escrever inquiridor, mas enganei-me – tenha em linha de conta que dar lixo a comer aos filhos consubstancia ainda e de certeza um qualquer crime de desleixo ou de maus-tratos infligidos a menores e seja implacável!

Eu cá por mim vou rever a gramaticazinha, quer-me parecer que em tempo de crise – não será por culpa do acordo ortográfico – o verbo roubar se conjuga de outra forma ou significa coisas bem diferentes das que os meus paizinhos me ensinaram!


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