A causa pública

António e Manuel são irmãos, oriundos de uma família humilde, que aos 18 anos, e apesar de terem concluído com êxito o 12.º ano, tiveram que entrar no mercado de trabalho, para garantirem os meios necessários às suas sobrevivências.

Um rumou até ao Sul do País, indo trabalhar para uma multinacional, enquanto o outro concorreu a um lugar da Administração Pública, na zona Norte do País. Por coincidência, e com muita força de vontade, continuaram a estudar e concluíram passados uns anos os cursos de Engenharia Electrónica e de Economia, respectivamente.

Naturalmente que face às qualidades de trabalho, reconhecidas superiormente, foram progredindo nas suas carreiras profissionais, granjeando a estima dos seus colegas.

António reformou-se com 40 anos de serviço, quando era já então o director geral da empresa. Seu irmão, após 38 anos de serviço e demonstrando sempre uma enorme defesa do interesse do erário público, aposentou-se da Função Pública com a categoria de director de serviços.

Nada de mais, no quadro quotidiano que conhecemos, sendo exemplos semelhantes a muitas outras situações conhecidas.

Reconhecidos pelos seus pares como honestos, dinâmicos e de grande capacidade de trabalho, foram “convencidos” por partidos políticos distintos a liderarem candidaturas às eleições autárquicas que iriam decorrer dentro de um ano.

Ganharam as mesmas e passaram a liderar os respectivos concelhos.

Um conjunto de coincidências atravessou até aqui as suas vidas.

António passa a acumular a sua pensão com o vencimento de presidente de Câmara, enquanto Manuel acumula a sua aposentação com um terço do vencimento de presidente da Câmara (?!).

Países diferentes? Justiça? Ocupação de lugar por nomeação directa de qualquer partido político?

Nada disso, simplesmente a miopia de quem por vezes decide, sem cuidar de saber o que é a realidade.

Se não se entende a nomeação, salvo raras excepções, de reformados e pensionistas para lugares em empresas públicas com chorudos salários, parece-nos que diferenças haverá, quando cidadãos se sujeitam à escolha mais democrática que se conhece – a eleição pelos seus pares – com todas as consequências que isso implica.

Manuel incomoda-se com esta lei, de nada valendo a vida inteira dedicada à defesa da Administração Pública, com muito esforço e prejuízo da sua vida pessoal, com muitas noites a trabalhar, buscando as respostas para as solicitações do dia seguinte.

Só a enorme pressão dos seus pares, que lhe reconhecem qualidades para gerir bem aquele concelho e o respeito pelas gentes humildes, que nele confiaram, o fazem esquecer a injustiça, que muitos outros a sentem mas estranhamente calam.

No respeito pela causa pública, vai continuar o exercício das suas funções, procurando contribuir para que os seus concidadãos tenham melhor futuro, não deixando de reflectir na discriminação de que é alvo, depois de tantos anos de dedicação à mesma.

Mais um exemplo da paga que é feita a muitos que se dedicaram de alma e coração na defesa da causa pública.

Sem comentários…

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