Trato de querer que se aceite o razoável

Há uma crise financeira, e muito grave? Decerto. Há um fenómeno de pessimismo alarmista? Sem dúvida. Posso pensar serem culpados o sistema e os que o administram? Talvez.

Mas não devemos, entendo eu, duvidar de nós próprios, e pelo trabalho, espírito de poupança, inteligência política, temos de nos reabilitar aos nossos olhos (sociedade em geral) e impormos de novo o bom senso na administração, em especial, ao nível dos quadros políticos intermédios – a vergonha nacional.

Quero exemplos. Algum quadro politico intermédio (leia-se nas estruturas administrativas locais) secunda os lideres nacionais, tornando o discurso destes mais perceptível (porventura mais prosaico) ou /e honrando a função que exercem, não a usando abusivamente para outros fins? Não, estão demasiado ocupados pelo domínio na “paróquia” e pelo sinal do cata-vento que lhe indique a próxima liderança.

Não obstante, a nível nacional trato de querer aceitar o desempenho aceitável dos líderes do PS (Governo) e do PSD (Oposição).

Cito exemplos. Deu a sensação a muita gente que a declaração do Sr. Ministro das Finanças – limite dos 7% de taxa de juro seria a barreira psicológica para pedirmos a ajuda do FMI – foi deslocada e inoperante. Não o foi de modo algum.

A celeridade do processo de aprovação do Orçamento do Estado 2011 parece bem clara. Fundamentalmente tratou-se de “avisar a navegação” que as medidas do FMI seriam bem mais radicais, imediatas, dolorosas para todos nós. Quanto às implicações externas – mercados – foram irrelevantes, como seria de esperar. Quanto às implicações internas, foram da mais alta importância política e o PSD percebeu-o: tratou de aceitar o razoável.

Cito outro exemplo. O Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros exprimiu-se, diplomaticamente (consumo externo), na “defesa” de um “contrato nacional” que permitisse uma governação estável, fosse ela sob a forma de um “acordo de cavalheiros”, de um “acordo parlamentar”, em última instância de uma “coligação formal de partidos, na governação”. Acham que foi pouco sensato nas declarações? De modo algum. Repare-se: o Orçamento do Estado 2011 era uma realidade que surgia à luz do dia, já estava acordado, e de forma irrevogável.

Todavia, a “guerrilha” político-partidária indiciava que a crise política, queda do governo, continuava na agenda do dia-a-dia. Teria que se pôr cobro a tal anomalia. Assim, quanto às implicações externas (mercados – não foi por acaso que foi dito pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros), as suas declarações são da mais alta importância e gravidade de consenso político, ou seja, o equilíbrio – estabilidade política interna – não pode ser alterado.

E o que sucede agora, ante os nossos olhos, é que parece constituir um verdadeiro “acordo de cavalheiros” o novo discurso político do PSD; tratou-se, mais uma vez, de aceitar o razoável.

Há mais. Numa hierarquia da atenção política interpretativa (quem fala, quando, como) – primeiro: o Ministro das Finanças, tendo como objectivo o Orçamento do Estado; de seguida: o Ministro dos Negócios Estrangeiros, tendo como objectivo os mercados externos e a contrapartida do compromisso político interno (clarificação do “modus vivendi” partidário na Assembleia da República), especialmente o PSD, expurgando-o da “obediência” a ideias messiânicas, que reciprocamente se excluíam.

Por fim, isto equivale a dizer que o Sr. Primeiro-ministro (o cume da pirâmide política governativa) vem agora dizer-nos que não precisamos de ajuda externa, a menos que, se não quisermos estar precavidos contra as ameaças (reais) que nos espreitam, corremos certos e sérios riscos de perdermos dignidade nacional, sermos vencidos, nos rendermos, ou seja, deixarmos de querer aceitar o razoável.

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