O sul

Vivemos nas últimas décadas a olhar para o Norte. Parece normal que assim tenha acontecido. A descolonização separou-nos de África nos anos que se lhe seguiram. À América do Sul, só recentemente demos a atenção devida. E a integração europeia obrigou-nos a olhar para a Europa, a comparar-nos com a Europa. Facilitou o contacto, a mobilidade, o negócio, a viagem, o conhecimento, a integração e até a amizade.

Pensou-se pouco no Sul como uma parceria natural, como uma oportunidade ao nosso alcance. O Sul que faz parte da nossa história, da nossa cultura, quase tanto como o Norte. Nós que vivemos sempre entre um e outro.

Certo, criou-se aqui mesmo, em Coimbra, uma Biblioteca Norte- -Sul, no Centro de Estudos Sociais, fomentaram-se projectos de investigação conjuntos e abriram-se até delegações no Brasil e em Maputo. Publicou-se um bestseller sobre o Sul. Estimulou-se Lisboa como hub de viagens para o Brasil e a África. E provavelmente outras iniciativas como estas aconteceram por aí. Mas não foram assim tantas ou tão visíveis como isso.

E eis que um dia nos abalroou esta crise, que não veio do Sul mas do Norte deslumbrado por alguma forma de fazer dinheiro fácil. Uma crise que fez uma Europa, talvez demasiado acomodada ao seu bem-estar das últimas décadas, pensar que tem de lutar pelo seu lugar no mundo. Que o poder a nível mundial está em vias de reorganização, que há potências emergentes, algumas bem a Sul.

Uma crise que nos fez pensar a nós europeus mais periféricos que temos de encontrar outros parceiros com quem negociar, para onde exportar, com quem colaborar. E o Sul, mais próximo ou mais distante, voltou ao centro de todas as atenções.

Ainda bem que assim é. Isso só pode tornar-nos mais interessantes, mais independentes, talvez mesmo mais criativos e capazes de vencer.

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